VIOLA

Abs Moraes

A casa tinha dois pisos e um porão. Em criança, era vetado que ali descesse sob risco de duro castigo físico. Há histórias contadas sobre porões e guarda-roupas como portas pra dimensões escuras de onde vêm todo tipo de horror rastejante e que, dependendo da idade do ouvinte, são muito mais eficazes como prevenção ‘as estripulias da infância. Eu mesmo as ouvia com profundo interesse quando meus contemporâneos reuniam ânimo ‘a luz do dia e faziam suas narrativas simples, limitadas pelo número de palavras que encontravam ‘a disposição, mas ricas em emoções, em particular, o medo.

Havia aquela da velha da chuva, hoje tão gasta; a do homem no tronco da árvore; do cão negro do diabo; a do velho da sacola e tantas mais. Na escola, fui iniciado em todo um diferente espectro de contos, sendo o mais conhecido o da loira do banheiro. Contos de prevenção, em sua maioria, mas dolorosamente reais para crianças de imaginação fértil, ainda intocadas pelo poder da tevê e da imagem, tão mais eficazes na comunicação e capazes de efeitos narcotizantes para os sentidos e que não nutrem as mentes.

Tantos anos depois, fui forçado a retornar ‘a velha casa e resolver os últimos trâmites legais de sua venda. Fui encarregado disso por meu pai, que já não desejava preocupar-se com o mundo dos negócios e preferia seu retiro no condomínio fechado a qualquer outro ambiente sobre o qual já não exercesse controle. O último locatário, falecido havia pouco, foi de fato o último. Manteve o lugar exatamente do jeito que o encontrou, pintando-o anualmente e fazendo todo conserto como contratado. Por força desse documento, também evitou guardar qualquer de seus pertences no porão proibido. A única entrada permitida era durante a luz do dia e para reparos eventuais nos sistemas elétrico e hidráulico da construção. Desnecessário dizer que nem mesmo as desse tipo ocorreram. Aparentemente, tudo na casa se mantinha como na construção original. Óbvio que meu pai teve o cuidado de alugá-la somente para pessoas desprovidas de curiosidade, o que fazia questão de testar pessoalmente, numa entrevista prolongada. Por outro lado, o aluguel cobrado era um fator que encantaria qualquer pessoa, mesmo as não-curiosas. A venda, para uma rede de supermercados que comprou todo o quarteirão, pareceu mais que vantajosa para meu pai. Para mim também.

Apesar de ter feito reserva num hotel modesto do centro, decidi passar a noite na casa, por causa de um número muito grande de indivíduos mal-encarados nas ruas próximas e, também, pela mais pura nostalgia.

Tudo parecia exatamente o mesmo. A casa parecia viva, como um parente mais velho com quem se perdeu o contato e só se readquiriu tarde demais, comumente no indefectível velório.

Me pergunto se o que ocorreu foi produto de minha imaginação ou o último lamento de um desenganado… e sobre a terrível, terrível coincidência de que soube pouco depois… Também, se quero uma resposta ou prefiro a abertura que a dúvida permite.

Os fatos marcantes da noite tiveram hora marcada. Antes deles só houve a visita do entregador de pizzas ‘as 19 horas e minha contemplação do pôr-do-sol atrás da serra nas cercanias da cidade. Ocorreu-me a frase “O crepúsculo é a fresta entre os mundos” sem nenhum motivo aparente. Algo gravado em minha memória e que emergiu dada ‘a beleza daquele momento particular.

‘As 23:20 estendi minha jaqueta no chão de madeira e, usando só meias e cuecas, me preparei para o descanso pedido pelo corpo.

‘As 24:00 senti um calafrio apesar do calor da noite e um rangido no assoalho, que quase pareceu um gemido humano, se fez ouvir. Ao sentar-me, ainda no chão, o som repetiu-se, dessa vez mais suave e longamente. O que quer que fosse vinha não da madeira, mas de sob ela. Como estava no térreo, isso só podia significar o porão. Lembrei-me, de repente, das histórias contadas e dos medos infantis tão bem desconstruídos pelo racionalismo implacável de um contador sempre ‘as voltas com os números e a possibilidade de sonegar impostos usando um ou outro estratagema para burlar a lei. Ri de mim mesmo ao constatar com as pontas dos dedos que os pêlos de minha nuca estavam arrepiados e que a criança, por um momento, superara o contador. A lembrança da pré-puberdade veio seguida por um súbito desejo de romper com meus próprios tabus psicológicos, a começar pela proibição por parte dos genitores de ir ao porão. É verdade que os locatários estavam proibidos de ali descerem durante a noite, mas talvez a regra não se aplicasse aos locadores. Vesti as calças e calcei os sapatos. Não quis me dar ao trabalho de por uma camisa. Anacronicamente, acendi uma vela e apanhei as chaves.

Então desci.

O que vi pode ser perfeitamente descrito como… me faltam palavras. Talvez a comparação mais adequada seja a de um cirurgião que observa os órgãos internos palpitantes de seu paciente.

Era isso.

O porão palpitava. Era o centro vivo da casa. Apesar disso, não havia a princípio nada de anormal que saltasse ‘a vista. Era mesmo um porão antiquado e podiam-se ver canos e fios ancestrais perfeitamente preservados, veias e filamentos vivos. Havia também um sistema de aquecimento rudimentar cuja tubulação partia de uma caldeira a carvão que eu ignorava se fora usado em algum momento. Estranhamente, não havia teias de aranha ou sinal de qualquer outro inseto. Também não havia pó.

Apesar da surpresa do ambiente parecer tão limpo, decidi que não havia nada de errado ali e voltei-me para a porta que levaria ‘a superfície. Já prestes a alcançar o ar noturno e cálido, ouvi novamente o ranger que se assemelhava a um gemido e pude determinar que vinha da caldeira.

Meu projeto de sair foi momentaneamente adiado. Aproximei-me da caldeira que, segundo minha comparação inicial, equivaleria ao coração da casa e notei colunas de fumaça que se erguiam dali. Na verdade, não se tratava de fumaça. Apesar da aparência fantasmagórica, me pareceram entre sólidas e líquidas, um estado gelatinoso da matéria… notei que pareciam vivos, apêndices de uma criatura inimaginável.

Estendi o braço, descrente de meus olhos, e toquei a portinhola da caldeira. Ao invés de ferro frio, meu tato revelou a mesma tepidez da carne viva. De um corpo humano. Mais uma vez o contador em mim forçou-me a enfrentar o incompreensível e escancarei a portinhola com um movimento brusco para encontrar mais da mesma substância-fantasma ali dentro, enovelada e gemendo.

Achei que tocá-la me despertaria no chão da casa sobre minha cabeça, que seria o antídoto do pesadelo e o despertar da razão. O contato com a superfície pulsante, que simulava vida, seria o choque necessário para ligar minha percepção objetiva do mundo. Achei que haveria repulsa no contato com o novelo…

E me enganei…

Me vi envolvido num súbito fluxo de informação.

Senti a sobrecarga e um choque. De alguma forma, a matéria na caldeira acessava informações trancadas em meu próprio corpo e me alimentava com elas.

Tudo que havia em mim herdado de meu pai abriu-se como um livro e pude lê-lo. Ele fazia parte de um grupo. Denominavam-se “Construtores”. Era um “capítulo” ou “falange” de um grupo maior, mais velho cuja tradição poderia ser rastreada milhares de anos no passado. Na época era bastante jovem e afoito. Sua preocupação era quase palpável. Se não o conhecesse, acharia que estava prestes a cometer um crime, mas não, tratava-se de uma iniciação. Estava vestindo uma bata igual ‘as dos outros homens, porém sem adereços. Em sua mente, a imagem de uma jovem esposa grávida e a pressão sentida por não possuir nada além de seus sentimentos para ofertar-lhe. Cobranças de um sogro abastado. A ameaça de intervenção da família dela na sua. O surgimento da oportunidade na forma do grupo que agora pretendia integrar e que “cuidava dos seus”. Ele notou onde estava ao mesmo tempo que eu reconhecia o lugar. Seria possível que minha intrusão naquele momento particular de sua vida garantisse a visão da casa futura que ali construiria? Estaria ele vendo o terreno em meu tempo como eu o via no seu, ainda vazio, sequer havia alicerce, só o chão de terra solta e, no mesmo lugar onde a caldeira estava, uma menina de aproximados 15 anos jazia amarrada. Transpirando medo. Desenhos pontuando cinco vezes um círculo ao redor da moça. “É virgem”, disse um dos homens mais velhos, o grão-mestre, nível mais alto na hierarquia do capítulo. O pavor nos olhos da menina refletido numa lâmina curva e defletido por um medo diferente nos olhos de meu pai: do fracasso. Ele dobrou-se depressa com a lâmina em punho. Cânticos foram entoados. Sangue empoçou-se na terra dentro do círculo e foi absorvido a seguir. O nome da virgem foi escrito num pergaminho que queimaram dentro da mesma circunferência. O grão-mestre pode finalmente saciar sua vontade e tomou a pureza da menina para si antes que incendiassem seus restos até haver só cinzas e ossos. Depois, tudo moído e misturado ‘a argamassa. Construíram a casa sobre seu cadáver, com seu cadáver. Meu pai, afinal, cometera um crime: assassinato!

Então o circuito se desfez. Havia acessado mais uma informação que ficou momentaneamente esquecida enquanto o novelo escapulia de meus braços onde se enroscara e tomava a forma familiar da virgem sacrificada. Ela disse:

-Sustentei esta construção por 40 anos!

Acrescentou:

-Liberte-me, senhor, eu suplico!

Entendi, então, o motivo de a casa ter sempre a mesma aparência; entendi porque era proibido ir ao porão; entendi porque o ambiente palpitava e gemia; entendi que eu era seu senhor por extensão, que ela reconhecia meu pai em mim… meu pai, o impiedoso homem de negócios, no entanto, não perguntaria:

-Como?

-Diga meu nome! O mesmo de que fui privada há tanto tempo e que foi oferecido ao abismo!

Então, a informação esquecida subiu com um sopro dos pulmões, vibrou em minhas cordas vocais, bateu no céu de minha boca, moldada por língua e dentes e, finalmente, liberada pelos lábios:

-Viola…

Fechei os olhos involuntariamente. Visualizei o crepúsculo de horas antes, a passagem entre os mundos, e desejei que fosse diferente daquelas imaginadas em criança, que fosse uma rota de escape de Viola para um lugar melhor, livre da opressão, da tortura, da dor imposta por criaturas de almas negras. Foi minha oração sem fé a única liturgia dada ‘a menina.

Ao abrir os olhos, senti a urgência tomar conta de meus músculos e impulsionar minhas pernas. Tive tempo suficiente apenas para apanhar meus pertences no interior da casa morta e chegar ‘a calçada. Já não era um rangido que se pudesse confundir com um gemido. Era o colapso e a desintegração o que via diante de meus olhos. Como se alguém tivesse plantado explosivos bastantes para causar uma implosão discreta, sem o troar característico. Poderia jurar que via a madeira decair, assim como os tijolos e o concreto que se desfizeram mais uma vez em pó… então o vazio e o silêncio.

Voltei ao hotel para passar o que restava da noite e meu celular tocou ainda no hall. Ao mesmo tempo em que a casa desmoronava, meu pai foi encontrado sem vida na poltrona em que costumava assistir tevê ‘a noite até que o sono viesse.

No velório, seu caixão estava lacrado para poupar os amigos e parentes do esgar de horror fixo que nem mesmo os maquiadores da funerária conseguiram suavizar.


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  • veja só: nessa última brincadeira, Moore revisita vários contos de Lovecraft e vai costurando tudo numa narrativa coerente, como se fosse...sooono 2 months ago
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