PENIEL: Primeiro Contato

Abs Moraes

A cidade tinha outro nome quando as nuvens sobre ela incendiaram-se com a entrada de xenorganismos em veículos extra-estelares na atmosfera.

A respiração coletiva foi suspensa enquanto todos olhavam a batalha que se precipitava aceleradamente sobre suas cabeças e lares. Na vanguarda da invasão celeste, a nave tripulada pelo humanóide Gauge tentava um pouso forçado apesar das avarias já sofridas no vácuo.

Em vão.

Os caças inimigos continuavam a martelar a fuselagem com projéteis de luz sólida e apesar da recuperação momentânea do campo de força e da súbita desaceleração da queda, Gauge não pôde impedir a desintegração do quarteirão sobre o qual caiu, tampouco a perda de vidas locais.

Os pensamentos em sua mente no momento seguinte eram dirigidos ‘a sua estrela natal e ‘a vida de aventuras que abraçara ao decidir tornar-se um explorador espacial. A cabine de sua nave incendiou-se e os eletrodos de navegação transmitiam toda a dor da fuselagem semi-destruída aos seus centros nervosos. Com um movimento brusco, livrou-se deles. Notou que o calor das chamas intensas mal o incomodava e atribuiu isso ao choque. Um impulso abriu o cockpit com facilidade suficiente para conceder-lhe o tempo necessário de apanhar armas, munições e uns poucos instrumentos que, esperava, dariam o inferno a seus assassinos… morreria, sim, mas levaria com ele tantos alcalinos glúons quantos pudesse.

Os caças pairavam sobre sua naveta e um exame de sua visão periférica revelou o pavor dos nativos que tentavam esconder-se em suas construções primitivas.

Foi salvo do projétil inimigo por um reflexo condicionado de esquivar e correr. Em campo aberto, tudo que podia fazer era sacar as armas de mão e contar com seu conhecimento dos projetos dos caças inimigos, adquirido numa de suas primeiras missões, para atingir os tanques de combustível. E contar, também, com toda a sorte de que dispunha.

Derrubou o primeiro com três disparos certeiros que abriram o casco e expuseram o combustível sólido ‘a atmosfera da Terra. A explosão surda dispersou partículas e a onda de choque espalhou o resto da esquadra.

Aproveitando-se do momento que levaria para que os inimigos se reorganizassem, Gauge correu.

A velocidade com que cobriu os 100 metros que o separavam do prédio mais próximo o surpreendeu.

Um casal de nativos formado por um macho mais velho e uma fêmea jovem ocultava-se sob uma mesa e começou a fazer ruídos guturais que Gauge entendeu como uma forma rudimentar de comunicação baseada em sons. Nada tão sofisticado como os agregados de idéias transmitidos pelo tato de sua raça. Tocar-se em pontos energéticos do corpo era muito mais eficaz em se tratando de comunhão.

Tocou a testa do macho, que pareceu paralisado. Talvez o bloco de informações tivesse sido excessivo, apesar de comprimir somente dados a seu próprio respeito e sua estrela natal.

Os caças glúons sobrevoavam as construções ‘a sua cata.

Não poderia esconder-se indefinidamente e já se preparava para sair e tentar abater mais inimigos quando foi detido pelo macho.

“Você… é um tipo de deus? Essa armadura não pode ter sido forjada por nenhum instrumento mecânico! E seu nome… em minha língua…”

“Pai, deixe-o ir! Ele não parece estar entendendo o senhor!”

Mas entendia e surpreendeu-se com a aproximação fonética de que a criatura foi capaz, particularmente por seu nome nunca ter sido traduzido em sons.

Tentou mover a atmosfera que retinha em seu sistema respiratório e usá-lo em conjunção com o digestivo para modular palavras, mas descobriu que precisaria de treinamento especializado antes de ser bem-sucedido.

O macho não queria deixá-lo ir. Pressionou um feixe de nervos junto a seu pescoço. Suas fisiologias eram similares, afinal, apesar de as usarem de modos diferentes.

Libertou-se do nativo no momento exato em que um dos alcalinos glúons, usando um exoesqueleto mimético, atirava em sua direção.

O homem paralisado viu o disparo de luz defletido pela placa peitoral do alienígena que lhe parecia semi-divino. Gauge, por sua vez, surpreendeu-se novamente: um projétil de luz disparado daquela distância desintegraria sua armadura em condições normais. Mas as condições locais, percebeu, não poderiam estar mais distantes da normalidade.

As juntas dos exoesqueletos miméticos eram seu único ponto fraco, lembrou-se. Criaturas protoplásmicas com 75% de álcool sensiente em sua composição jamais entenderiam o funcionamento real de um vertebrado. A proximidade dos nativos, no entanto, o impedia de usar suas armas e, num rompante instintivo, Gauge chutou o equivalente ao joelho dianteiro do trípode, estilhaçando-o. O exoesqueleto reagiu, tentando tornar-se quadrúpede, mas era tarde: Gauge afundou seu punho na carapaça sob a qual o alcalino se encontrava, rachando sua superfície dura e permitindo a entrada do ar.

Os ruídos que o glúon fez ao começar a evaporação de seu corpo foram perturbadores, mas nada comparado aos sons que se seguiram ‘a sua combustão espontânea.

Uma das características mais marcantes dos alcalinos é a empatia. Na verdade, a raça era um único organismo que se dividiu por eras e eras até que se esquecesse que era um e se entendesse como raça, mas isso não mudava em nada o fato de que o corpo coletivo sofria com a perda de qualquer mínima parte.

Sabendo disso, Gauge saiu mais uma vez ‘a campo aberto para enfrentar os sobreviventes enfurecidos pela dor que lhes causara e, ao mesmo tempo, poupar os nativos, tanto quanto pudesse, de uma batalha que não era deles.

E, por quê não?, experimentar novas surpresas que este admirável mundo novo poderia trazer-lhe.

Gauge correu como nunca tinha corrido em sua vida, mais rápido do que qualquer gravidade conhecida permitiria. Serviria de alvo aos alcalinos, desviaria sua atenção dos locais e mataria quantos pudesse. No fundo, porém, deixou crescer em si a esperança de sobrevivência. Teve certeza que a salva de advertência dos glúons não fora para alertá-lo. Na verdade, sentiu um impacto similar ao do disparo ‘a queima-roupa que recebera há pouco, mas menos intenso.

E ele não caiu.

Ainda em movimento, já com suas pistolas em punho, Gauge foi grandioso em batalha. Algo que poderia contar aos que herdassem seus genes.

Sob a metralha de luz, pacientemente mirou um a um os caças.

E disparou.

E disparou.

E disparou.

Vezes sem conta, foi o que lhe pareceu. As armas pareciam a ponto de derreter-se em suas mãos e precisou mesmo largá-las no silício granulado que compunha o solo de onde estava. Viu-o fundir-se sob o calor das pistolas, tornando-se uma massa vitrificada.

Então ergueu os olhos mais uma vez e julgou que seria a última.

Os canhões de proa do caça glúon remanescente apontavam diretamente para sua cabeça. Podia sentir pontos de luz que triangulavam sua face em busca de seus olhos. Suas pupilas dilataram-se.

Apesar de toda resistência imposta, seu fim chegara.

Sentiu seu corpo sendo jogado para o lado no momento preciso do disparo. Então morrer era assim? Um baque surdo e uma explosão?

O caça tinha seus canhões ainda fumegando.

Gauge deu-se conta de que fora lançado para o lado não por um míssil, mas por um corpo que tomara seu lugar frente ao inimigo. A forma, carbonizada além de qualquer reconhecimento, descobriria mais tarde, pertencia ao macho idoso que paralisara há alguns instantes.

Ergueu-se.

Foi tomado por um rancor absurdo advindo do massacre da criatura heróica e ingênua que Gauge fez o impensável: correu alguns metros e saltou em direção ‘a nave glúon… sem perceber o que fazia, abateu o veículo com as mãos nuas, desmantelando-o no processo, arrancando camadas de metal isolante como se fossem de papel, e, finalmente, expondo o alcalino ‘a atmosfera da Terra.

A dispersão da criatura era perturbadora. Seguiu-se a explosão espontânea do corpo amorfo.

Ganhara a batalha, mas seu conhecimento de explorador garantia que não seria a última vez que veria um alcalino. Estava cansado, mais cansado do que jamais estivera antes, mesmo com todas as surpresas das leis da física local… dirigiu-se ao corpo e caiu de joelhos ao seu lado. Entendeu aquele último gesto do nativo como matéria de lendas de sua civilização. Houve um tempo em que seu povo também fora capaz de altruísmo.

Lágrimas encheram-lhe os olhos.

Tirando o elmo pela primeira vez, expôs a cabeça completamente. Ao seu lado, também próxima ao cadáver, estava a fêmea jovem. Pela linguagem corporal, as mãos grudadas ao abdômen, próximas ‘a região umbilical, deduziu que era cria do macho.

Agora, privado de qualquer meio de deixar a superfície terrestre, Gauge ficaria, como um náufrago espacial, perdido naquela ilha. Mas ao menos teria companhia. E foi pensando nisso que decidiu que, para ficar ali, a cidade precisaria mudar.


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