ESCALDADO NO FOGO DO INFERNO

Abs Moraes

29/2

Apesar de o rabino dizer que as terças e sábados são os melhores dias pra iniciar novas empreitadas, já que são duplamente abençoados, optei pelo clichê de realizar o ritual na meia-noite de sexta pra sábado.

No fim, contava muito menos com a bênção de YHWH do que com a de seus opositores.

O objetivo era romper meu qlipoth. Seguindo o conselho de tio Aleister, sacrifiquei um punhado de crianças, mas tudo bem que eram das minhas e dificilmente fecundariam algum óvulo.

Tudo caminhou direito até o término. Me especializei no controle do fluxo seminal com o propósito de ejacular precisamente à meia-moite do dia estabelecido. Uma vida inteira, desde a puberdade, de treinamento. Funcionou de um jeito inesperado. O que pensei que aconteceria: o qlipoth se romperia como a casca de um ovo e eu exibiria minha nova plumagem na próxima reunião do clube (mais sobre isso em outra ocasião). O que aconteceu: deitei com o corpo ainda quente e senti, pouco antes de adormecer, que ele se aquecia cada vez mais. Imaginei que a punição do deus judaico-cristão contra meu crime onanista seria a combustão humana (não tão) espontânea, mas me enganei. O qlipoth derreteu e me deixou pronto pra experimentar o mundo sem sua proteção.

Agora a menor de minhas preocupações é “ver pessoas mortas”…

O que me deixa na maior saia justa no mais das vezes é que elas também me vêem. E querem falar comigo, ter notícias de parentes, saber da cotação do dólar ou quem ganhou a última taça Libertadores da América.

A morte é um negócio democrático: todo mundo fica mais estúpido depois dela.

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01/3

Meu motivo, o principal, pra querer me ver livre da “casca” protetora (ou “couraça neuromuscular” segundo outro de meus heróis), foi perceber a interferência que ela representava pra minha percepção da realidade. Com ela só podia suspeitar de outros planos que não o físico, sem ela, podia senti-los, vê-los e, muito mais perigoso, interferir neles.

O que me traz à razão que me faz passar o tempo livre garatujando neste caderno velho: com a nova experiência, preciso repensar meu vocabulário de modo a acomodar todos os significados que antes não estavam lá. Em certa medida, é como psicanalisar o fenômeno particular que me ocorre: preciso reduzir tudo a palavras e, assim, utilizando esses símbolos tão familiares, apreender a grandeza, a multitude de lentes pelas quais enxergo a realidade.

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05/3

Nos últimos dias estive mais ocupado do que o de costume, daí a ausência de novos registros por aqui.

Não vou sequer tentar me enganar dizendo que entendo o que ocorreu, só vou tentar colocar os fatos da melhor maneira possível sem me ater a interpretações duvidosas ou formulações mistificadoras.

O que pra alguns parece loucura ou ficção é minha realidade e preciso conviver com isso, o que pode tornar a leitura desses registros uma experiência árida a um curioso desavisado que só quisesse descobrir números de documentos ou senhas que estivessem anotadas aqui.

Como disse antes, “ver pessoas mortas” é o menor dos problemas e nem mesmo chega a ser aborrecido. O problema é que elas também me vêem e sabem de minha condição especial em decorrência, talvez, da ausência de qlipoth.

Ou, ainda talvez, porque eu queira que me vejam.

Penélope é uma delas.

Desde que me encontrou pela primeira vez me perturba com o mesmo questionamento, o mesmo pedido, o mesmo tudo. Descobriu até o bar onde costumo almoçar e me segue todos os dias, por mais que eu ache indigesto, no mesmo horário, em sua campanha insistente pra me fazer investigar sua morte misteriosa.

É assim com a maioria dos fantasmas.

Eles permanecem atrelados ao plano físico enquanto tiverem assuntos pendentes e/ou se foram vítimas de morte traumática. Penélope consegue ser um exemplo dos dois casos.

O fato de não saber o motivo de seu assassinato e de ter sido assassinada foi demais pra que conseguisse alinhar seu espírito de modo adequado com a vibração do plano etéreo a que está destinada.

E foi no bar que finalmente aconteceu o que eu julgava impossível: surgiu uma pista pra resolver o caso inconcluso da garota fantasma.

Então, “um português entrou no bar…”

É um non sequitur estranho, admito, mas necessário pelo que aprendi com tio Chandler. É com cada vez mais freqüência que sinto as palavras me escaparem. Mais um possível efeito colateral da ausência de minha casca, mas aprendi a conviver com ele graças ‘as histórias detetivescas e ao velho “quando em dúvida, coloco alguém entrando em cena com uma arma na mão”.

No caso, um português.

O pessoal chamava o sujeito de “Mosca” por causa dos olhos esbugalhados que iam em todas as direções ao mesmo tempo e tiravam o equilíbrio de quem tentasse um téte a téte com ele. Ah, tinha também uma crosta de sujeira aderida ‘a pele e lembrava um pouco Jeff Goldblum nos estágios finais de sua fusão com o inseto totêmico de meu indesejado companheiro de mesa.

Como disse, as palavras fogem.

E, não, ele não tinha uma arma na mão, só queria um favor do tipo que me especializei em prestar.

Imagine como foi ouvir Penélope falando que “Ele… ele está aqui” ao mesmo tempo em que lidava com Mosca me pedindo mais um ingrediente fantástico pro próximo projeto alquímico de um de seus clientes…

Sequer conseguia mastigar o hambúrguer de soja sem morder a língua. Um trauma. Real. De verdade. Mesmo.

Informação demais me mata aos poucos. Preciso recebê-la em doses homeopáticas e a única coisa que pude fazer então foi apelar pros instintos mais básicos do inseto amigo de todos nós e dizer que não rolaria se ele insistisse em falar comigo enquanto eu almoçava.

Com um grunhido de contrariedade, aceitou passar no “escritório” mais tarde, no mesmo dia.

Penélope ainda gemia assustada quando pude lhe dar atenção.

06/3

Mais assuntos pendentes me interromperam ontem. Precisei sair e quase não voltei. Conseqüências desta vida desregrada e vazia de aborrecimentos. Sim, não dá pra ficar entediado com tanta gente viva e morta trafegando, entrando e saindo dela.

Mas falava de Penélope e sua reação alérgica ao que quer que fosse no bar.

Depois que Mosca saiu, me voltei e olhei na mesma direção que ela.

A aparência do sujeito jamais faria alguém pensar que ele era capaz de assustar um fantasma mas foi o que aconteceu. Ela estava assustada.

Ele tinha estatura mediana e nada, nenhuma característica que chamasse a atenção. Cabelos muito pretos entremeados com fios brancos não são mais indicativos de idade. Rosto ovalado e comum, nariz burocrático, boca de lábios finos, forçava a vista de quando em vez o que o fazia parecer precisar de óculos, ausentes no momento.

Nada mais.

Tomava suco de laranja, mais tarde sua condenação.

O cara que o acompanhava, por sua vez, provocou arrepios até em mim.

Mas isso é sobre Penélope. Penélope apavorada despertou em mim todos os sentimentos que não deveria e desejei ser capaz de segurar sua mão e fazer o temor passar, mas tudo que podia fazer era olhá-la e tentar falar. Mesmo os mortos sofrem com aquilo que ainda pode feri-los. No caso, a memória da perda.  Sim, a perda de todas as possibilidades futuras era um corte que ainda não cicatrizara na alma de Penélope.

 A lâmina que o cutucou foi o rosto mais corriqueiro do mundo.

O outro…o outro definitivamente não era da mesma cepa. Não matava no varejo. O cheiro que desprendia e que não era percebido por mais ninguém era de matadouro, de sangue apodrecido que encharcou seu corpo e secou nele.

De outro plano.

Escaldado no fogo do inferno.

Lembrar dele me tira a firmeza das mãos. O olhar era de desprezo completo por mim, por você e por qualquer coisa viva que lhe cruzasse o caminho.

Em momentos assim apelo para um artifício que incomoda a maioria. Tiro minha cigarreira de prata, moldada a partir de vários crucifixos derretidos, e apanho meu único cigarro que tem sua própria história. É meu milagre particular. Herdei de um homem santo que só tinha esse vício e providenciou um subterfúgio para mantê-lo. Fumou o mesmo cigarro a vida toda, um só cigarro, porque conseguiu achar a fórmula mágica da regeneração do tabaco. Isso faz com que o danadinho, sempre que apagado e guardado em sua caixa de prata, volte ao tamanho anterior como se nunca tivesse sido tragado. O tabaco também não mofa nem fica com gosto ruim.

Meu recurso, minha rota de fuga, consiste em apanhá-lo e fazer um ritual que em duração e cerimônia pode ser comparado ‘a cerimônia do chá e que tem como função afastar minha mente para um lugar seguro. Me ajuda a readquirir o foco necessário pra prosseguir no que quer que esteja fazendo.

“Ele me matou”, ela disse.

Tirei o fósforo da caixa e risquei em arco produzindo a faísca necessária para acender a pólvora e inalei o odor acre de sua combustão. Traguei e as moléculas de nicotina se ligaram quase de imediato aos meus neurônios, produzindo o efeito de relaxamento desejado. A ponta em brasa me deu algo em que me concentrar.

Fumei-o até a metade quando comecei a divisar uma rota de ação pela qual poderia trazer alguma justiça ao mundo e, quem sabe, paz ao fantasma atormentado de Penélope.

Daria trabalho encontrar um gato disposto a colaborar no ritualzinho obscuro que eu tinha em mente… gatos não costumam doar sangue sem uma boa briga, e isso é de conhecimento público.

Sabia a quem recorrer de modo a não precisar sofrer com arranhões desnecessários. Afinal, meu fornecedor dos artigos exóticos necessários para os rituais ‘a frente havia, sincronicidade ou não, me procurado ali ainda há pouco.

07/3

E precisei dormir. Dias de privação de sono fazem miséria comigo. Agora continuo.

Os olhos de Mosca dardejaram pelo ambiente infestado pelo cheiro de comida decomposta… um cheiro tão forte que poderia cegar um desavisado por alguns momentos.

Disse-lhe do que precisava e ele, piscando duas vezes, apanhou um jogo de ampolas cheias do frigobar no canto da saleta e, depois de checar, murmurante, as etiquetas que as separavam (morcego, anta, unicórnio, elefante, quimera… e mais um punhado de passageiros de Noé e outros de faunas menos reconhecíveis) encontrou o que eu precisava. Paguei o de sempre e evitei perguntar como ele conseguia os itens bizarros de seu acervo. Evitei também perguntar se o crack era pra uso próprio pois, apesar do descuido com a aparência e a higiene pessoal, ele era uma das pessoas mais lúcidas com quem tive contato.

Evidente que Mosca aproveitou a ocasião pra encomendar-me o que viera pedir tão afoito no bar.

Evidente que aceitei a encomenda.

Todo mundo precisa ter uma fonte de renda e, aquilo que ele pediu era algo que, em catálogo, renderia o bastante pra me sustentar sem luxos por um ano.

De antemão, sabia por quem ele negociava e imaginei o quanto levaria de comissão como atravessador. Dr. Leary tinha uma renda que excedia a imaginação e, antes do fim do dia, eu mesmo estaria na fila por um de seus produtos mais populares.

Restava preparar o rito a ser seguido pra descobrir mais a respeito do antagonista misterioso de Penélope.

Me poupo o trabalho de descrever os nerds infernais e seus computadores com dados que fazem falta a qualquer cpd de delegacia de polícia. O importante é que toda a ficha do sujeito estava lá e, nenhuma surpresa, mais informações conflitantes do que o que se espera num caso como o dele, de alguém em posição de manter as aparências sem fazer esforço.

Pra se sair de um crime de assassinato sem nenhuma suspeita o indivíduo precisa:

  1. ser danadamente cuidadoso;

b. conhecer as pessoas certas nos lugares certos.

A primeira característica deve ter sido apreendida em jogos sexuais proibidos e de longa duração como os perpetuados em instituições de ensino especializadas e insuspeitas. Jogos entre meninos, do tipo que não pode deixar lesões aparentes e que forçariam os vitimizados a não revelarem as ocultas.

A segunda dependeria muito mais dos interesses que o criminoso pudesse defender em seu cargo, com a posição ocupada por ele junto ‘a comunidade.

Não eram poucos.

08/3

Claro que tudo o que se espera desse gênero de história em última instância é uma confrontação final em que tudo é posto em pratos limpos.

No entanto, decepção das decepções, não é assim que funciona nesse mundo estranho e real em que vivo.

Toda a retórica normalmente usada nesses momentos jamais sequer deu as caras na conclusão do episódio. Ficou mais como um detalhado auto-exame por parte do criminoso do que qualquer outra coisa.

Mas me adianto.

Tudo isso porque preciso me livrar o mais rápido possível dessa tarefa auto-imposta se quiser continuar com qualquer tipo de tarefa no futuro próximo.

Pareceu-me que o assassino de Penélope tinha aliados em altos escalões de um poder não muito convencional. Costas largas num lugar venenoso o bastante pra matar alguém só por imaginá-lo.

Mas “pondo o carro ‘a frente dos bois” outra vez.

Como consegui as informações do jeito que consegui, elas seriam de pouca valia numa situação prática que envolvesse a polícia, por exemplo. Se alguém daria um fecho ‘a toda essa bagunça em que o pós-morte se transformou pra Penélope, seria eu… com ajuda de qualquer parte que estivesse interessada em qualquer nível.

A internet dos nerds infernais ou “infernet” jamais seria considerada como fonte de informações, até porque, pra maior parte das agências de manutenção da lei existentes, ela não existia.

Precisava punir o crime sem os entraves da burocracia secular. Facilidade relativa.

Penélope ficou excitada ao descobrir que estávamos num estágio mais avançado do processo de redenção de sua alma. A condenação a vagar enquanto tivesse essa pendência não fez nenhum bem ‘a sua auto-estima. Queria ser capaz de adivinhar sua reação ‘a minha proposta e, na verdade, era.

Por uma fração de segundos ela ficou ruborizada, feito considerável pra alguém que já quase esqueceu como é estar vivo.

Fui alimentando-a com tudo que podia a respeito do caso a fim de fazer-lhe a cabeça em seu papel na conclusão. Ela teria que trabalhar com as pernas pra reunir o que eu precisava… tá, acho que a imagem é física demais pra descrever a ação esperada, mas capta a idéia geral bem o bastante.

O que ela faria estava, literalmente, fora de meu alcance.

09/3

Com a participação de Penélope garantida eu já tinha os efeitos visuais necessários ‘a empreitada, só faltava preparar os olhos do espectador. Mais difícil, claro.

Fala-se muito em LSD hoje em dia, mas o que se encontra ‘a venda no mais das vezes é anfetamina no formato de selinhos. Eu precisava da droga em sua variedade líquida. Se você perguntar por aí, vai descobrir que esse material é, na prática, lendário, uma lenda da variedade urbana.

Mas havia um canal, melhor, “O” canal e eu o usei.

Dr.Leary, não o original é evidente, era um químico da indústria farmacêutica até que seus experimentos com auto-medicação o lançaram na periferia de meu mundo. Negociar com ele era divertido porque não precisava de dinheiro… pelo menos não algumas vezes. Como soube por Mosca que o velho Doc estava na demanda de um item de acesso restrito ao “externauta”, minha vida ficou mais fácil e já tinha como começar a negociação.

O que quer que quisesse agora tinha a ver com sua busca pela síntese da pedra filosofal ou qualquer outra baboseira alquímica.

Encontrar um enforcado é até fácil com os contatos certos. Difícil é encontrar um enforcado que tenha morrido sobre solo fértil… é importante que suas entranhas se tenham esvaziado sobre terra pra conseguir o que eu precisava.

Os nerds ínferos foram mais uma vez de essência pra execução dessa fase do projeto. Mais sangue de gato e mais uma conversa com Mosca se fizeram necessários. Dessa vez, ofereci em pagamento parte do que receberia do Dr. Leary como troco.

Era uma edícula ridícula por não ser uma casa de fundos nos fundos de uma casa maior… estava sozinha no terreno murado e, além do muro, não havia concreto no chão, muito menos dentro da edícula. O cadáver semidecomposto pendia e a sujeira secara em suas pernas.

Caí ao chão e pus-me a cavar sob seus pés e extraí de lá a mandrágora que soltou seu urro característico ao ser desenraizada.

Dr.Leary ficou tão contente que me deu mais LSD do que o que eu precisava. Guardei o dinheiro, passei o excedente da droga pro Mosca e me preparei pra nova etapa da empreitada.

Precisava descobrir em que misturá-lo e puxei pela memória até lembrar do que o assassino bebia quando o vi pela primeira vez.

Não era mosto, não era vinho ou cerveja, era suco de laranja.

Então, já com tudo em mãos, restava a intervenção final. Esperava que Penélope tivesse feito sua parte.

10/3

Tenho certeza de que tudo o que registrei agora pode ser lido por qualquer eventual leitor e, mais difícil ainda, leitor entendido, como ficção fantástica, talvez inspirada por muitos filmes B assistidos em noites mal-dormidas, mas pra mim foi real. Ainda assim, tento me colocar na pele desse leitor hipotético e digo que me sentiria enganado, ultrajado e outros adjetivos que soem pertinentes quando aplicados a uma criatura sapiente que deveria acreditar em toda essa aparente lenga-lenga doidivanas sobre mortos que aparecem pros vivos, vingança do além túmulo etcaetera e tal.

Apesar disso, ainda preciso terminar a história e esta seria, imagino, a parte mais esperada.

Levei o suco de laranja batizado na sacola do supermercado em que o comprei. Marcar hora e esperar o atendimento no gabinete foi a parte mais fácil. No domingo anterior fui ‘a igreja e me converti ao cristianismo. Como novo convertido foi fácil ter acesso ao responsável pelo doutrinamento, daí a missão andou bem mais depressa. Na hora marcada, britânico, ele abriu a porta e me pediu que entrasse.

O ambiente tinha o mesmo cheiro de seu acompanhante no dia fatídico em que Penélope o reconheceu no bar. Matadouro. Sangue coagulado. Urina e fezes. Mas era só um odor residual, nada tão forte quanto a presença real do outro. Apesar disso, confirmava minha suspeita de algum tipo de consórcio proibido… aquele cheiro horrível não era do tipo que surge voluntário em ambientes fechados. Ele foi trazido.

Entreguei-lhe o suco como presente e ele não tardou a providenciar copos e gelo pra brindarmos minha “nova vida”. Achei que o gelo poderia diluir mais ainda o efeito do ácido mas não quis estragar o momento nem diminuir o impulso do homem a virar o copo.

E ele bebeu bastante e com pressa antes da liquefação começar.

Nossa conversa durou cerca de 1 hora. Quando ele já me chamava de irmão pela ducentésima vez (sim, tive a curiosidade de contar), piscou e, calando-se, ficou olhando ao meu redor.

Depois reteve a atenção em sua própria mão e começou a balbuciar a respeito de auras e fotografias Kirllian, coisas que, imaginei, não fariam parte do currículo do seminário.

Ao me olhar outra vez, sua visão e percepção já alteradas pela droga, viu que não estávamos sós e começou a ter dificuldade pra falar e respirar.

Afinal, ele pode ver todas as cinco, inclusive Penélope.

Quando pedi que ela reunisse outros espectros ligados ao pastor por sangue, imaginei que o número fosse maior devido ‘a sua idade. Assassinos em série geralmente trabalham em ciclos. O que aconteceu com esse específico é que seus ciclos eram maiores, daí o número menor de vítimas.

Eu não tinha nenhuma curiosidade em saber sua motivação. O mais provável era que fosse algo ligado ‘a frustração sexual, dadas as mutilações exibidas pelos fantasmas.

Sem ser notado e enquanto elas se aproximavam dele pro seu acerto particular, levantei e saí do gabinete. O que aconteceria a seguir não o mataria mas deixaria abalado o bastante pra que repetisse em si mesmo o que fez a cinco outros seres humanos.

Não ouvi gritos.

Só o barulho de alguém desesperado que tenta sair de um quarto fechado que, de repente, não tem mais portas.

11/3

Penélope não apareceu mais depois disso.

Gostei de pensar, enquanto durou, que ela estava em paz consigo mesma e tinha enfim entrado na sintonia certa pra alcançar o reino ao qual pertencia agora.

Mas recebi uma visita que originou dúvidas.

Uma visita que não se anunciou e que não vi.

Havia um envelope sobre minha escrivaninha quando voltei pra casa três dias depois… lacrado com cera vermelha onde podia se ver, esmagado em baixo relevo, um brasão similar ao de muitas variações de lojas maçônicas… Tinha um cheiro peculiar e familiar que se irradiava dele.

Cheiro de morte.

O conteúdo da carta era um tipo de reclamação feita, e isso é só uma comparação aproximada, por alguém sofrendo um sério ataque de síndrome de Tourette por escrito.

Dizia, em resumo, que eu fora responsável pela perda de um agente confiável e insubstituível e que ele, o remetente, faria de tudo pra apagar meu nome do Livro. Dizia também que eu não esperasse rever nenhum fantasminha conhecido.

A assinatura era indecifrável mas poderia ser facilmente confundida com a “digital” de um animal de casco fendido.

A cera que selava o envelope, depois de exame, foi identificada como algo encontrado na maioria das vezes em veias humanas.

Desejei pelos dias seguintes ser capaz de recuperar meu qlipoth e voltar ‘a vida semi-cega, visão toldada por escamas, de antes.


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