ERIS ou Desordem

Abs Moraes

I.

-Estava vivo em vários pontos quando achei… falando assim, sem mais nem menos, carece de sentido dizer…

Esfrego os olhos com os nós dos dedos tentando desfazer a névoa que se formou neles de repente. A sala obscurecida não colabora para meu entendimento do filme e me forço a lembrar que o dinheiro gasto na entrada está incluso na coluna “despesas” da nota que vou mandar ao cliente no fim do trabalho.

O homem, por causa do amor incondicional que nutre pela mulher, atende seu pedido e a parte a machadadas na tela. Qual o sentido disso tudo? A imagem granulada daria a impressão de filme antigo e talvez fosse essa a intenção do diretor, resgatar de alguma forma simbolismo e nostalgia daqueles filmes de arte sem pé nem cabeça dos 60-70, obrigando a audiência a associar a imagem de baixa fidelidade ao nonsense então corrente.

Mas isso ainda não justifica minha presença aqui. Há alguns minutos juro que saberia dizer. O volume de informações que tenho acumulado e a cena na tela, no entanto, me deixam com mais dúvidas agora do que antes de ter me envolvido com a investigação. Era a respeito de outra pessoa mas agora é também sobre mim mesmo. Era para conhecer o inimigo, suposto, de meu cliente, mas tornou-se em autoconhecimento. Minha clareza a respeito da investigação perdeu-se e tenho como novo objetivo encontrá-la. Entrei aqui porque meu objeto de pesquisa também o fez. Ou me mandaram vir. O homem cuja mente se confunde agora com a minha.

Artur.

Era outro lugar.

Sim, sem dúvida.

A mulher, inteiríssima, cruzou as pernas bem no alto e escorregou a bunda para a beira do assento acolchoado da cadeira, dando uma noção excessivamente quente de si mesma e sorrindo abertamente ao notar que precisei ajeitar a recém-adquirida ereção dentro das calças antes de falar. Isso é o que chama de comunicação não-verbal em seu ápice.

Na tela, o homem sussurra encostando o olho do machado em sua testa, os joelhos das calças escurecidos pelo sangue da mulher. Me faz lembrar de um porco no abatedouro, mas ignoro o motivo.

Deixou mesmo de fazer sentido.

Mas acho que está por aí, andando de mãos dadas com a clareza que já tive.

O tempo, claro.

A única coisa que tem mantido separados passado, presente e futuro é uma noção verbal arbitrária que tenho de quando a palavra “eu” fazia mais sentido.

Esperei de todo coração que ela tentasse me seduzir mais obstinadamente. Foi em vão. Depois de deslizar seu rabo pela cadeira, foi direto aos negócios.

O homem aponta o machado para o próprio rosto. Está em pé, pés separados de modo que o movimento pendular se inicie entre eles e se encerre entre seus olhos.

O que ela queria?

Artur não está aqui. Estou sozinho na sala de cinema que não é mais cinema, é meu apartamento e a tela que reproduz o filme é a tevê acoplada ao dvd player.

“Represento o Rei Lagarto.” Ela sibilou.

O homem tomba sobre seu próprio sangue. O suicídio mais risível que tive chance de assistir.

“É uma forma de inteligência definitivamente mais avançada que a sua.” Disse, sem despregar os olhos dos meus.

Sorrio.

“Um alienígena?” Perguntei, sem pestanejar e notei que, sem os óculos escuros, ela estava com os olhos fechados mas não precisava abri-los pois tinha pálpebras transparentes.

Do crânio partido ao meio escorre um pequeno rio vermelho com fragmentos de branco e cinza dando-lhe vida.

“Só antigo.” Ela continuou e notei dentes pequeninos e pontiagudos. O que ela é? O que quer de mim?

Em dúvida quanto ao significado disso tudo, acendo algo similar a um cigarro e só paro de tragar quando absorvo a fumaça da tinta evaporada da caneta.

Artur entrou nesse momento no escritório.

Artur entra neste momento na sala.

Estava armado.

Está armado.

“É uma máxima de Chandler” disse apertando o gatilho e mandando a mulher lagarto embora numa nuvem de escamas translúcidas.

“Você também foi infectado?” me pergunta e atira em meu peito para ter certeza. Por uma fração de segundo sinto o ar invadindo minha caixa toráxica mas a sensação passa.

“Ainda não” ele disse, quando tentei alcançar minha arma na gaveta da mesa.

“Ainda não”, diz ele e sorrio idiotamente, aliviado por perceber que não morri.

Então desaparece/u.

II.

Tentando catalogar itens em número suficiente para descolar um nome meu. Vasculho o apartamento e pela primeira vez penso na possibilidade de que não seja meu apartamento. Por que estaria vasculhando, então? Alguém teria notado minha invasão? Chamariam a polícia?

Eu chamei. Eram só três números e o disco do aparelho de fácil manuseio. Dei o endereço e disse com minha melhor voz de suspense: “Uma mulher foi morta no meu escritório”.

Encontro penas espalhadas no quarto. Guerra de travesseiros ou mais um assassinato bizarro? Uma mulher-pássaro, talvez? Uma coruja bate suas asas lá fora em algum lugar e não tenho idéia de onde a informação veio.

Os policiais me perguntaram se eu estava de saída para o trabalho noturno quando chegaram e, ao responder que não, eles deram risadinhas contidas. O mais velho socou o ombro do mais novo e disse que ele curtia um bom rabo travestido.

Alguém fazendo adivinhação com entranhas frescas no box do chuveiro esqueceu de limpar a sujeira que encontro. Procuro por um padrão que não está lá.

O mais novo disse que os prefere depilados. Perguntaram da tal mulher assim “E a tal mulher?”. “As escamas ainda estão por aí”, respondi. O mais velho, obsceno, notou que as únicas escamas no ambiente eram as da minha saia e percebi que estava sentado com as pernas cruzadas bem alto. Sem meia-calça.

Relaxo. O box do apartamento que não é (?) meu é minha última preocupação quando enxergo pela primeira vez através da parede.

O mais novo levou a cantada adiante. Achei impossível resistir a seu charme de macho uniformizado, armado e escroto. O mais velho sugeriu um ménage ‘a tróis. Declinei, mas dei um jeito de rabiscar rapidinho “me liga” num de meus cartões e passá-lo discretamente ao garoto.

Porque ela não está mais lá. Ruiu. Percebo que o banheiro, parede a parede, como numa explosão cujo ponto zero é o lugar onde me encontro, desapareceu, as demais paredes também, da sala, dos quartos. Dominó.

“Bela bunda”, ele disse, deslizando a mão calejada sobre minha saia de couro de cobra enquanto saía.

Agora o teto. Agora o chão. Vejo só os móveis, inclusive os embutidos. Isso deve facilitar minha busca, pelo menos é o que acho.

Então se foi com seu parceiro. Uma mulher assassinada a menos para investigar. Havia mulher? Primeiro havia, depois não e então eu. Mas todos ganharam algo com esse encontro.

Então tento lembrar o que procuro. Junto letras. I. D. Até os móveis desaparecem.

Esperava que ele me ligasse. Me sentia como um adolescente, com toda uma vida de novidades e experiências pela frente e meu novo amigo policial era só o começo.

Vácuo branco é o que resta. Não há espaço externo, dia-noite-prédio-rua-bairro. Só vazio.

Talvez uma relação com um homem de verdade me ajudasse a encontrar-me. Mas estava repleto de dúvidas e precisava me depilar com urgência. Um banho de banheira com sais aromáticos estava na ordem do dia.

Então não noto o cachorro correndo na alvura da cúpula celeste. Ele é branco e só o percebo porque fala comigo. Torna-se impossível ignorá-lo. É mais branco que a brancura que nos cerca. Está ali?

Afundei até o nariz na água morna e me senti limpo, relaxado e sexy. Fiz borbulhas expirando com força e ri um risinho agudo de criança.

“Alô, você!” ele diz. “É o quinto que vejo nos últimos minutos! Já encontrou?” Pergunto do que ele está falando.

Deslizei a mão sobre minha pele coberta de espuma e, entre minhas pernas, encontrei a ereção desaparecida com a mulher-lagarto. Me acariciei, acompanhando o movimento da água e gozei na banheira. Pensei na mulher, mas também nos dois policiais.

“Seu osso, é claro! As pessoas que perdem o osso sempre vêm procurar aqui…” Penso em perguntar novamente mas me dou conta de que ele abana o rabo com tanta felicidade que só pode mesmo ser um cão.

O mais velho tinha a mão de marreta dentro de uma luva cirúrgica e lambuzada de vaselina e dizia que queria checar minhas cavidades corporais. A idéia de ser modelo de Mapelthörpe me excitou.

Acaricio sua cabeça, ele lambe minha mão, dá uma daquelas fintas que cães dão quando querem brincar de pegar e sai correndo. Pisco.

O mais novo usava só o quepe e o cinturão com arma e cassetete pendurados, além das botas. Versão mais nua de um integrante do Village People.

E tudo se dissolve.

Artur pediu que me levantasse do chão. Disse que eu estava dando vexame e que me masturbar dentro de um chafariz em praça pública era um jeito estranho de chamar atenção.

Em pé parado na esquina do mundo, observo a seta que diz “siga a seta” e continua fixa no lugar. Deve ser um troço zen. Fico parado onde a seta está e olho na direção que ela indica. Num ponto distante, vejo um homem aproximando-se.

Ele sorriu.

É Artur.

“O futuro é o presente apenas alguns segundos adiante”, ele disse. “É fácil prever seu futuro, meu caro”, sussurrou, apontando na direção de um par de guardas civis que se aproximavam de arma em punho. Artur, baixinho, “É melhor sair daqui rápido” e “Me encontre no apartamento”, antes de, mais uma vez, desaparecer.

De repente percebo que minha confusão vem do fato de ter, pela primeira vez, entendido o que é o tempo e esquecido, simultaneamente, o modo como costumamos organizá-lo em passado presente e, é claro… isso explica o motivo de ter estado no apartamento. Fui lá para encontrá-lo. Ainda não sei se era o meu ou o dele e também não sei se isso importa. Sequer tenho certeza se era um apartamento ou só a idéia que tenho de um apartamento. Breve resumo da obra. Informação codificada num gabarito.

III.

A idéia de tempo linear foi reimplantada com sucesso e devolveram-me nome e números que me descrevem. Cumpri a sentença de dissociação como determinado pelo júri e tive memórias, consideradas perigosas pelo juiz, prontamente apagadas.

Diagnóstico e veredito se confundem presentemente. Artur, o diretor da clínica, me reintroduziu ao meu universo como ele é: doenças psicológicas são vetadas ‘a população. Psicoses, neuroses, sociopatias, esquizofrenia, síndrome do pânico e afins abalam o status quo o bastante para que o governo determine intervenção policial em casos assim. Enquanto falava, Artur não desgrudava os olhos do palm top que tinha, adivinhe onde?, nas mãos e repetiu a ladainha de que só me informava para justificar minha internação involuntária na instituição federal em que me encontrava. “Só o fundamental para que entenda as conseqüências de um comportamento nocivo ‘a coletividade na qual será reinserido no próximo ciclo”, disse entre uma e outra nota feita na tela de cristal líquido. Decidi que seria saudável não questionar a respeito do que levou ‘a minha apreensão inicial. Mesmo assim, antes de sair da cela, ele me disse: “Você estava tão doente que se tornou infeccioso. Todas as pessoas de seu convívio também foram extraídas e tratadas”. Aparentemente houve um surto de alucinações em massa. Traçaram da periferia até o centro da “infecção” e me identificaram como “paciente zero”.

Não me informaram a respeito do que eu alucinava, o que via ou dizia. Queriam evitar recaídas. Uma enfermeira sorridente e bastante afável que dizia chamar-se Maria contou-me que minha descompressão antes da reintrodução na sociedade seria feita numa aldeia ribeirinha primitiva onde, esperavam, o convívio com os nativos e o trabalho braçal teriam efeitos terapêuticos. Ela disse que o tratamento com LSD e a instalação da nova personalidade foram considerados sucessos retumbantes.

Estou agora na aldeia, no meio de uma reunião em que os pescadores discutem os rumos futuros da comunidade com a recente escassez de peixes e a dificuldade que os mercadores têm para trazer o trigo até tão perto do mar. Noto a preocupação de algumas mulheres cujas crianças choram de fome e a exasperação dos responsáveis por alimentar os presentes na reunião. Peço que me mostrem o que há para comer: alguns peixes, um punhado de pão.

Que posso fazer?


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