A Cidade que Aristóteles Construiu

Abs Moraes

1.

Aristóteles Silveira era famoso na vizinhança.

As crianças corriam quando o viam passar, todos os dias, em direção à padaria e ao seu consumo diário de frios, pão, café e o cigarro ocasional.  Acompanhando-o de perto, os pequenos gritavam para ele, com ele, até que, do alto de seu metro e oitenta, magro e sinistro, lhes desse “O Olhar” como retribuição.

Aristóteles já passara dos sessenta há muito.

Além da magreza assustadora, rugas profundas vincando a pele do rosto e cabelos claros como uma folha em branco eram suas principais características.

Nada de incomum, nada que chamasse atenção.

Exceto… o guarda-chuva preto e antiquado que carregava consigo aonde quer que fosse, motivo da gritaria da meninada.

Tudo acontecia como uma cerimônia elaborada de uma religião desconhecida e não deixava de acender, no coração do velho, uma pequena chama de reconhecimento e afeto.

Ao vê-lo descendo a rua, as crianças amontoavam-se em um grupinho e, com crueldade típica da idade, gritavam depois de sua passagem: “Olha a chuva!!!”

A parte que cabia a Aristóteles no ritual era mais significativa, tanto para ele mesmo, como para as crianças (que o encaravam como um ente quase sobrenatural, o louco além das cadeias de restrições impostas por pais e professores): virar-se e dar-lhes “O Olhar”… que consistia, basicamente, em fitá-los intensamente, com olhos abertos de modo perturbador (uma imitação eficaz, segundo os padrões do idoso, do olhar vampiresco de Bela Lugosi).

Findo o rito, o “ator” veterano congratulava-se pelo desempenho eficaz que tivera em seu papel e, secretamente, orgulhava-se em saber que figurava na mitologia infantil das crianças do bairro como “O Velho da Chuva”.

Há, afinal, algo mais delicioso para um criador de mitos do que tornar-se um para uma geração ainda tão nova?

Por quê não ser o fator gerador de medo na equação do susto que as crianças criaram?

“O medo”, pensava Aristóteles Silveira, “foi meu ganha-pão por muito tempo.” Um sorriso secreto brotava em seus lábios e ele terminava seu percurso sem mais incidentes.

2.

Aristóteles Silveira gozara de alguma fama não relacionada ao fato de ser um velho estranho condicionado a carregar um guarda-chuva aonde quer que fosse, não importando o clima.

Nos anos 40, pouco antes de o Brasil posicionar-se contra a Alemanha na 2ª Grande Guerra, sob um pseudônimo que soava vagamente germânico, escrevera contos de terror para revistas baratas.

Por um motivo oculto à sua percepção, suas histórias fizeram sucesso entre os leitores, que terminaram por formar um fã-clube, no Rio de Janeiro, para divulgá-las.

Baseando-se na cultura popular e em mitos indígenas, Aristóteles criou fábulas de horror barrocas envolvendo o culto primitivo a uma divindade reptiliana no Pantanal Mato-grossense que foram comparadas à obra de Lovecraft…

A comparação, no entanto, o aborrecia mais do que lisonjeava.

Sua obra obedecia a um projeto construído meticulosamente em seus anos mais produtivos, com o objetivo de criar uma mitologia inédita, incluindo regiões desconhecidas e dialetos esquecidos, que serviriam como pano de fundo para sua narrativa monstruosa.

“O americano”, como se referia a Lovecraft, não tivera o mesmo cuidado com sua obra e produzira apenas peças soltas de um quebra-cabeças inconcebível. Apesar disso, não desdenhava, como os ditos “escritores sérios”, do estilo adjetivoso de seu contraponto americano.

Findada sua carreira como escritor pago (não conseguira dar à luz seu projeto completo graças ao desaparecimento das revistas baratas que o publicavam e ao completo desinteresse das editoras por obra tão sem paralelo no mercado editorial brasileiro), consolou-se em manter a manufatura de seus textos como um passatempo, na esperança de que, um dia, fossem publicados numa coleção insuspeita em vários volumes.

Dedicou-se por um breve período ao jornalismo (sensacionalista, ou sensacional, como tudo o que escrevera) e, posteriormente, a lecionar em escolas públicas.

Aposentado há mais de uma década, entretinha-se com a composição dos acordes finais de sua sinfonia do medo e divertia-se com o estudo das ciências naturais e uma tentativa quase infantil de alinhavá-las com o conhecimento oculto. As similaridades entre a física quântica e algumas correntes esotéricas o fascinavam de tal modo que sempre sentia um arrepio de prazer ao descobrir qualquer livro novo sobre um assunto ou outro em livrarias ou na biblioteca local.

3.

Aristóteles Silveira procedeu experiência sobre experiência no porão de sua casa de dois andares.

Os resultados que obteve foram pífios.

Em alguns momentos, respirando os vapores de enxofre ou outra substância qualquer, iludia-se com a possibilidade de notar uma brecha mínima entre sua dimensão e outras, maiores, mais vermelhas, mais insanas.

Suas incursões nos reinos da ciência e da magia não deram frutos, não tiveram sucesso algum… Só um, mínimo, pequeníssimo, que era acalentado em suas poucas horas de sono.

A arquitetura gótica despertou-o para uma alternativa que até agora ignorara: a magia da permuta.

Construiu com suas próprias mãos uma cidade em miniatura inspirada, em parte, pelos livros de construtores maçons iniciados. A maior fonte, no entanto, de seus devaneios estruturais, era sua obra literária.

Pensava na pequena urbe como o cenário perfeito para as aventuras de seus heróis atormentados e destinados à loucura.

Terminado o trabalho braçal, formulou um encantamento que levava em conta as peculiaridades arquitetônicas da maquete e, não menos importante, o alinhamento particular de planetas e estrelas em determinada data, além, é claro, do tradicional sacrifício de sangue, que não o incomodava de modo algum.

O objetivo final era transportar a civilização de seus sonhos tempestuosos projetada na miniatura para o mundo real, para o lugar vazio deixado pela metrópole em que morava e que, subitamente, seria reduzida e realocada no porão de uma casa que existiria tanto numa realidade quanto em outra.

Seria a rota de fuga perfeita para um homem idoso vivendo em um tempo tão inconseqüente e violento. O mais importante, no entanto, era o papel de sábio imortal que designara para si mesmo dentro de seu novo mundo.

Na data estabelecida, o morador da casa ubíqua proferiu a fórmula mágica, abriu seus pulsos e desenhou com seu sangue os símbolos descritos nos tomos poeirentos de outrora.

Não se sabe se o que aconteceu depois foi decorrência do que ele viu e ouviu durante o procedimento místico ou uma simples falha cardíaca.

 

4.

Aristóteles Silveira foi encontrado em seu porão em estado de decomposição avançado, vítima, segundo a necropsia, de um acidente vascular fulminante que o precipitou sobre a cidade de seus sonhos.

Seu corpo magro e debilitado pelos anos foi transfixado pela torre do templo do deus reptiliano de seu mito.

As crianças da vizinhança cresceram e trazem em sua memória até os dias de hoje, a imagem sinistra do “Velho da Chuva”.

Um tipo de imortalidade foi concedido ao escritor.


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