09
nov
11

06. Adeus, minha adorada

O roteiro escapou de meus dedos adormecidos e o som de papel, talvez mais pesado do que deveria, talvez por estar encharcado de sangue (onírico ou não), me arrancou da letargia e pude ouvir a voz de Simão, meu pai, grunhindo um xingamento qualquer, um flash inesperado da infância de que eu não sentia a menor nostalgia. “Mão furada”, “Já morreu” ou algo do tipo. O importante era fazer-me sentir inadequado, indesejado, inapropriado para ser o filho legítimo do Grande Mago.

Omar olhava pra mim com a condescendência que só mesmo o “Criador” poderia demonstrar. Diferente do que certos círculos teológicos propalam, Deus não se negou a Onisciência a fim de preservar o livre arbítrio da humanidade. Ele soube que eu sabia assim que pisquei os olhos e saí do cochilo-com-gatilho-mnemônico e da influência protetora do Instrumento da Morte. Éramos só nós novamente na réplica da casinha do quadrinhista morto.

“Isso é bem mais do que combinamos, Yadalbaoth.”

“Interessante, Lúcio, que você demonstre qualquer pudor em eliminar escumalha como Filipe.”

“Olha, o cara já não tinha sido punido o bastante? Séculos de reencarnações até queimar todo o carma ruim e, do nada, ele volta à estaca zero? Que mal o sujeito tinha feito nesta encarnação?”

“…”

“Além disso, a combinação não era eu me tornar seu novo Azrael. Não sou seu anjo da morte. Não quero ser só isso.”

“Sabe, Lúcio, o acordo era simples. Prestar serviços, usufruir das amenidades que um amigo influente pode proporcionar.”

“Claro que você não fez questão de deixar isso claro. Evidente que toda aquela conversa de que devolver a vida de Penélope era algo que você fez porque quis era mentira.”

Esperei que ele absorvesse o que falei e segurei a respiração. Ele era onisciente, onipotente e onipresente. O tempo não tinha significado pra Yada. Tudo que fez poderia ser desfeito de modo simples e rápido, porque, estando em todos os lugares e tempos ele poderia simplesmente deixar de fazer algo e seria como se nunca tivesse feito pra começo de conversa. Eu não podia blefar, claro, pois ele perceberia. Portanto menti. E ele percebeu que o pior que poderia fazer pra me punir não era cancelar a vida de Penélope, mas afastá-la de mim, fazê-la esquecer-me, apagar seu amor ou o que quer que ela sentisse por mim.

“Truque. Pois bem, Lúcio. Ela vai viver. Você já sabe o que vai acontecer, não? Não é preciso ser onisciente para saber.”

Eu sabia. Não queria ouvir mais. Precisei reunir toda minha força de vontade pra não cair de joelhos e dizer que voltava atrás, que mataria quem quer que fosse em seu nome pra manter Penélope em minha vida.

“No entanto… não pense que acabou, Lúcio. Você ainda me deve e vai trabalhar pra saudar essa dívida.”

“Te devia minha vida. Filipe por mim. Não mato mais em seu nome.”

“Mas vai fazer outros serviços. Não hoje nem amanhã. Quando for necessário. Quando eu quiser.”

A porta se fechou atrás de mim e sabia que, dessa vez, não tinha melhor metáfora que essa apesar de ser tão clichê: uma porta que se fecha. Meu deus ex-machina particular? Não mais. O amor de minha vida? Idem.

Era adeus.

Mas ela continuaria viva.


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