‘Sair do roteiro’ é uma expressão que costuma ser usada menos literalmente do que o que experimentei ao término da história. Ao invés de retornar ao ponto de partida, ao momento e lugar em que comecei a leitura, fui acordar dentro do mesmo cenário de sonho citado no começo deste relato: a cozinha e seu equipamento, o faqueiro falante com o acréscimo, desta vez, de uma grande quantidade de sangue. A maior faca do jogo disse “Não se preocupe, Lúcio, ninguém foi ferido na produção deste sonho… ninguém que importe”.
Deslizei minha mão por seu cabo e senti-a como uma extensão viva de meu braço. A faca simboliza sabedoria, lembrei, associando livremente o que sabia a respeito do naipe de espadas do baralho comum e do tarot com o método utilizado por Salomão para resolver a disputa de duas mulheres que clamavam a maternidade de uma só criança.
“Santa Joana dos Matadouros, Virgem dos Assassinos…”
Nomes têm poder. A faca anônima assumiu sua verdadeira identidade: a lâmina tornou-se negra; o cabo revelou-se esculpido em osso, branco. O instrumento do Anjo da Morte mostrou-se, ele próprio algo assustador, profano e sexy.
“Muito bem, querido, você lembrou. Quando despertar deste momento de lucidez tente fazer o mesmo, reter a informação que te entrego agora.”
Então eu soube das verdadeiras intenções de Yaldabaoth ao ajudar-me, melhor, ao levar-me a fazer uso do Instrumento do Anjo que, por uma razão que me escapou naquele momento, quis me fazer ciente do papel que cabia a mim nos planos do demiurgo.
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