17
jan
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03. Roteiro

“Quero te usar como personagem numa hq nova.”, ele disse, mas vindo dele as implicações iam muito além do simples “usar seu nome, sua atitude, sua aparência”. Onipotência, certo?

“Sei”, consegui articular, “E o que isso significa exatamente?”

“Por quê você não lê o roteiro e descobre?”, soltou, me passando um punhado de folhas grampeadas.

Com palavras e mais palavras digitadas em caixa alta na descrição de painéis e em baixa nas falas do personagem principal. Na verdade a coisa toda não passava de um monólogo que, supostamente, seria dito por minha versão de papel.

O título: A CONTINUIDADE DO FOGO, por Omar Espírito Santo.

“‘Quebrando as espadas, os templários fizeram punhais; e as pás de pedreiro proscritas eram usadas na maçonaria dos túmulos.’ Histoire de la Magie, do bom e velho Eliphas? Isso é, o quê, epígrafe? É só o roteiro de uma história em quadrinhos mesmo ou tem mais aqui do que pode ser percebido a olho nu?”, perguntei, e Omar/Yada deu um sorrisinho enigmático. “Claro, pergunta idiota pra se fazer a alguém que disse ‘que haja luz e a luz se fez’, certo? Dá pra sacar aonde isso vai levar de longe.”

“Um serviço. Um daqueles que te disse que gostaria que realizasse por mim. Tudo que precisa fazer é dizer as palavras. O resto vai acontecer sem esforço algum de sua parte.”

“Sei do que cê tá falando… Por quê você mesmo não as diz, Omar?”

“Lúcio, Lúcio, Lúcio… você não faz ideia do quanto me faz lembrar do seu quase homônimo. Tanta curiosidade levou-o a contestar-me e, depois, a rebelar-se. O serviço… bom, é só um pouquinho sujo, sabe? Uma pendência milenar. Encontrei o culpado e quero retribuir. Só isso.”

“Eles eram seus? O supra-sumo da cristandade, os monges guerreiros idealizados até o cu fazer bico eram sua criação?”

“A que Templo você acha que o título que escolheram pra si mesmos se referia?”

Subentendidos, autoreferência… Talvez Yada estivesse levando o papel de Omar um pouco mais longe do que deveria. Toda essa coisa pós-moderna do seu discurso me incomodava, claro, mas era difícil pensar em algo nele que não tivesse o mesmo efeito em mim. Poderoso demais, imprevisível demais… Tentei conter minha curiosidade. Fui bem sucedido por, sei lá, dez ou quinze minutos, e comecei a ler.

Imediatamente meu mundo tornou-se bidimensional, preto, branco.

Que loucura.


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