Algumas vezes o jeito mais rápido de ir aonde se é necessário não consiste em andar entre momentos ou pegar um táxi. Por isso pus os pés no calçamento de pedra nua com o firme propósito de andar no aqui e agora, sentir a dureza do chão sob meus pés e, como consequência, acreditar que estava ancorado na realidade, ou pelo menos, em uma realidade, sem ser levado por qualquer pessoa ao meu destino. Era uma atitude simples e necessária antes de encarar Omar ou Yada (ainda não me acostumei com como devo chamá-lo). O sujeito continuava sendo uma das criaturas mais assustadoras com que já cruzei mesmo usando a aparência de bom velhinho criador de histórias em quadrinhos.
Interessante que ao abraçar minha sugestão e assumir a aparência de Omar, Yada assimilou quase tudo que tornava o homem quem ele era e fazia questão de que sua personificação fosse perfeita. Não eram só os detalhes que diziam respeito a corte de cabelo, roupas, desodorante, comida ou bebida preferidas. Yada também mudou-se pra mesma vizinhança e cumpria ritualmente as rotinas que Omar manteve em seus últimos anos. Até pensou em confeccionar cópias da esposa do desenhista e de seu filho mas o convenci do contrário.
Já era mais que trabalhoso transformar a presença de um cidadão assassinado em algo aceitável por parte dos vizinhos (e a equipe toda rebolou muito pra fazer isso acontecer sem usar qualquer tipo de controle mental, segundo instruções do próprio Yada) e seria um pesadelo logístico providenciar algo semelhante pro construto da esposa… embora o filho não tivesse morrido, também consideramos difícil justificar sua presença.
Claro que, com as portas fechadas, Omar fazia o que bem entendia. Uma de suas diversões favoritas era criar e habitar vários corpos ao mesmo tempo e gostava particularmente de fazê-lo com trios. Às vezes me via lidando com Omar, a mulher e o filho, sua alusão à santíssima trindade que tanto desprezava, enquanto ouvia a voz do demiurgo saindo das bocas de toda a família… era estranho e incômodo.
O que ele tinha planejado pra mim, no entanto, podia ultrapassar os limites do que considero tolerável. A disciplina a que ele se referia era a de fazer histórias em quadrinhos. Como disse antes, o sujeito estava imbuído do espírito de simular perfeitamente, mas não lhe bastava só copiar as habilidades do morto cuja identidade adotou usando sua onipotência. Pra ser Omar, Yada decidiu que teria de aprender a desenhar e escrever exatamente como seu modelo fazia.
Então, muito simples pra ele, decidiu usar sua onipotência para viver todas as experiências que Omar tivera e o formaram, o que implicava viagem no tempo (“Uma ilusão. Elaborada e perfeitamente executada – não poderia esperar menos de mim mesmo – mas uma ilusão”, diria com a cara mais lavada) e algumas outras trapaças só possíveis pra alguém como ele. Às vezes Yada podia dizer coisas interessantes, como “Por quê todos vocês são fascinados com desenho nos primeiros 4 ou 5 anos de vida e a grande maioria simplesmente o abandona depois? O que faz com que só uns poucos continuem?”; em outras, podia ser só críptico, o que, acho, combinava muito mais com a personalidade registrada no Velho Testamento. “Talvez os dentes de leite expliquem isso um pouco.”, soltava, sem qualquer razão aparente. Descobri depois que Omar, por mais velho que estivesse, ainda tinha dois de sua primeira dentição na época em que morreu e Yada, óbvio, também imitou-o nisso.
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