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dez
10

A continuidade do fogo

01. Mensagem, aparição, sexo

Em sonho. A revelação veio a mim como a São João na Ilha de Pátmos ou a Lucas na praia de onde antes se via Peniel. Apesar disso, meu cenário onírico era diferente. Uma cozinha ou atelier culinário em que se podia encontrar geladeira com freezer, fogão e balcão com pia e dezenas de outras ferramentas do ofício de chef… panelas, pratos e talheres arrumados em gavetas, prateleiras e portas embutidas. Papel de parede estampado com marretas e cravos.

A mensagem foi entregue por um faqueiro.

Quase lembrei ao acordar. Uma advertência. A voz feminina, sonolenta, que parecia sussurrar entre lençóis “Ele vai usá-lo novamente, Lúcio, vai usá-lo para matar, querido, como antes…”

Algum motivo especial pras palavras virem dali? O que facas simbolizam mesmo? Um aviso desse tipo precisa ser levado a sério, ainda mais quando um conjunto inox de lâminas se preocupa em dá-lo.

Deus escrevia meu destino agora. Ou um deus. Ignorava a categoria adequada em que Yaldabaoth se enquadrava – até eu cedo à necessidade humana de rotular – e, também, que minha afiliação tornara-se algo definido não pela dívida que tinha com o demiurgo por devolver Penélope ao mundo dos vivos.

Era outra coisa.

O despertar foi diferente do de costume. Ao invés de passar pelo purgatório corriqueiro entre o sono e a vigília, só abri os olhos, parecia não ter dormido. Apavorante. Uma vida inteira acordando de um jeito e, de repente, algo muda. Nada que pudesse identificar de cara, só uma coisinha sutil, uma sinapse que ainda não existia, que talvez tivesse sido criada durante o sono ou que esteva ali desde sempre, inativa, esperando pela corrente eletroquímica certa para funcionar.

Sorri. Nada com que me preocupar, pensei. Tudo vai bem. Esta sensação quase beatífica foi ativada por meu olfato, que identificou o cheiro de café fresco sendo coado e de proteína fritando na chapa.

Penélope veio durante à noite. Lembrei de, ao chegar em casa (o loft que montei no meu armazém), encontrá-la dormindo, enrolada em um cobertor que tinha meu cheiro (ou seria fedor?) mesmo não estando tão frio. Sentei na cama, observei-a ressonando de leve como fiz tantas outras vezes e sussurrei um breve “Valeu, Yada” porque, sim, tinha valido e naquele momento não importava que preço teria que pagar.

Ao contrário do que imaginei que aconteceria, Penélope não desapareceu de minha vida assim que se viu vivendo de forma independente. Sempre que podia (e isso costumava acontecer nos finais de semana) ela aparecia pra visitas surpresa, espontâneas, algo que lhe parecia perfeitamente natural, mas que pra mim era totalmente inédito, quase tão inédito quanto acordar de vez.

Então o frigir dos ovos (esse fraseado meio que denuncia há quanto tempo ando pelo mundo, mas, porra!, quem deveria se importar com esses detalhes não se importa, então…) me tirou da recapitulação útil e senti a vibração do estômago roncando. A coisa pareceu descontrolada, tive a impressão de que Penélope ouviu do lugar que costumo chamar de cozinha o movimento de minhas tripas famintas.

“A gente tem que alimentar esse alien, Lúcio, ou sabe deus o que ele pode fazer com sua caixa torácica.”

Gracinha. Piada com cultura pop. Penélope é “in” até não poder mais.

Consegui cambalear até ela, que esgrimia a espátula com a mesma destreza de um estudante shao-lin e quase me cegou com sua arma improvisada. Tentei roubar um beijo de bom dia, mas ela me explicou o procedimento necessário pra garantir qualquer troca de fluídos, significando que eu deveria fazer a higiene bucal antes de qualquer contato entre nossas respectivas mucosas.

O que pra mim estava bem. Talvez a sensação de que algo tinha morrido dentro de minha boca enquanto eu dormia não fosse só uma sensação. As abluções podem entreter tanto quanto qualquer outra atividade nesse ramo. Tudo é cercado de mistérios e a gente nunca sabe com quem (ou “o quê”… “quem” não se aplica a um monte de, arrã, “coisas” com que lido no dia-a-dia) vai dar de cara em momentos que podem ser bastante constrangedores.

Felizmente não tinha sentado no grande altar de porcelana quando a manifestação aconteceu. Só esvaziando a bexiga. Tá bom, sei, detalhes demais… o jorro inicial e meu déficit de atenção costumeiro ao me concentrar em aliviar a pressão em minha bexiga me fizeram perder as palavras iniciais do oráculo. “…preciso te ver, Lúcio. Fiz progressos na disciplina. Imediatamente ou, pelo menos, o quanto antes.”

Ver a cara de Omar Espírito Santo deformada por um jorro de urina e falando comigo sabendo que o sujeito tava morto não trouxe qualquer alento. Não podia brigar com Yada por causa disso porque ele só seguiu uma sugestão que dei num momento em que me faltou clareza.

Lavei o rosto, escovei os dentes e fui me juntar a Penélope pro café da manhã. A menina me fazia sair de mim mesmo como nenhuma outra mulher conseguiu antes. Num momento pensava em que porra Yada-Omar queria de mim, no seguinte só conseguia pensar na boca e no corpo de Penélope, em como sexo matutino era estimulante e, logo depois, que talvez não tivesse sido tão boa ideia comer aqueles ovos e partir pra uma atividade física que, dependendo da parceira, pode demandar muita energia.

Pós-coito, me meti no chuveiro e enquanto esfregava shampoo no cabelo percebi as feições de Omar repetidas milhares de vezes nas gotas d’água que caiam no meu corpo. Privacidade? Quem precisa dessa merda, certo?

“Já entendi, Omar. Deixa só eu terminar isso aqui que tou saindo.”

E ele, piedosamente, me deixou em paz.

Penélope ainda tava na cama quando saí. Dei um beijo demorado nela, disse que precisava resolver uma coisinha fora e voltava pra entretê-la no máximo até o final da tarde. Ela fez charminho (taí um troço que marmanjo nenhum jamais vai conseguir igualar quando feito por uma mulher bonita), virou de bruços (decúbito ventral?) me oferecendo uma visão do paraíso carnal que tava deixando pra trás e soltou um “Então tá, vai logo.” que partiu meu coração.

Sendo Omar quem era eu não podia só ignorar seu ‘convite’ e continuar em casa. O sujeito teve bilhões de anos pra aprender, criar ou disseminar as maneiras mais constrangedoras possíveis pra levar uma pessoa a fazer exatamente o que ele queria. Manifestar-se no vaso sanitário e no chuveiro nem eram as mais originais e/ou assustadoras. Experimente ser engolido por um monstro marinho, por exemplo. Ou ser achacado por um arbusto em chamas. Ou sair no braço com um anjo.


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