Pensei em abrir esta entrada com uma observação a respeito de como detetives são alvos fáceis e tal… tipo, os caras ganham uma merreca e fazem os serviços mais desprezíveis que se possa imaginar: descobrir quem está dormindo com quem e comunicar ao corno; plantar escutas eletrônicas com fins de chantagem a serviço de políticos, empresários e ‘poderosos’ em geral e outros trabalhinhos sórdidos do mesmo naipe.
Sabe aquele clichê do mensageiro que paga o pato, né?
O tipo de coisa em que Lucas se meteu é diferente. Claro, ele ainda trabalha pra ‘poderosos’ e o comportamento dessas criaturas pode ser tão ou mais imprevisível do que o dos outros rastejantes… mas super-heróis, alienígenas, deuses? Sem contar com aquele caso anterior, com demônios, ordens secretas (tá, nem tanto, já que eles têm até site), freiras fatais(!), relíquias sagradas e criaturas lovecraftianas prestes a serem invocadas… loucura pura!
Ele precisa de algum tipo de proteção extra, sabe? Pro bem ou pro mal, o que tou tentando fazer com esses registros é desvendar alguns segredos e preservar outros.
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Tudo bem. Lucas tem estado ocupado desde que recebeu a ligação do tal Lúcio. Gosto de pensar que é uma mudança positiva. Isabel voltou a aparecer. Linda como sempre, apesar de cercada com aquele ar misterioso e difícil de descrever e, claro, todo sarcasmo e ironia que seu dinheiro puder comprar. Quando conversa comigo tudo que diz é cheio de insinuações, como se quisesse colocar idéias na minha cabeça. Não tenho certeza se gosto dela.
Lúcio, que passou a freqüentar o escritório, por outro lado, parece muito com Lucas. Acho até que eles gostam da semelhança, isso os aproxima de algum jeito, cria um tipo de laço que não existiria. Irmãos que não são irmãos, pais e mães diferentes, molde idêntico, se é que isso faz sentido.
Ele é simpático. Mais velho e curtido que Lucas, menos indefeso, mais sofrido. Pelo que entendi, se meteu numa encrenca daquelas e a Isabel tem contato com a pessoa que ele ofendeu, prejudicou ou sei lá o quê.
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Meu ‘trabalho’ de imitadora de Mira Bandeira teve uma virada inesperada. Phillips, o pervertido pegajoso que dirige a casa de repouso Providência, renasceu das trevas depois de seu acidente com raio.
Pegou tanto no meu pé na semana passada que mal tive tempo de ler os benditos livros que chegaram. Conversei com Lucas a respeito e perguntei se precisava continuar a operação, ele deu risada (primeira vez depois de muito tempo!) e disse:
- Só se você quiser, Miss Rayworth.
Foi minha vez de rir, claro, com ele usando meu nick do MSN pra conversar pessoalmente. Bizarro!
Dei um chega pra lá educado no Phillips e passei a me concentrar na leitura do material de pesquisa. O primeiro da pilha, não muito melhor que qualquer coisa do Dan Brown e tão mal escrito quanto, tinha mesmo uma pista que merece investigação.
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Falei com os ubernerds da escola a respeito da “Sociedade da garça”, o tal livro. Puxa, eu não esperava que eles conhecessem! Apesar do nome do autor na capa ser Hans Magnus, o cara, se muito, era pseudo-alemão. Chamava-se Aristóteles Silveira, teve uma carreira breve como escritor comercial nos anos 40, ganhando por palavra (!) e escrevendo pulp fiction abrasileirada, tendendo sempre pro terror, mas incluindo elementos de vários gêneros. O que segue é, basicamente, o monólogo de um dos meus nerds de estimação:
O lance é mais ou menos assim: Silveira, que morreu no final dos anos 70, alegava ter encontrado os manuscritos de um dos membros da sociedade que ele descreve no livro. Segundo o que dizia, e isso tudo pode muito bem ser parte da criação, um recurso metaficcional, um ‘amigo livreiro’ comprou a biblioteca inteira de um velho falecido e o chamou pra ver os documentos que estavam escondidos entre os livros pra ter a opinião de um escritor e saber se valiam algo.
Examinando os tais registros que, entre outras coisas, detalhavam os rituais de iniciação, apertos de mão secretos e a ‘história pregressa’ da chegada da sociedade via Portugal no Brasil, teve a idéia pro livro.
Claro que a gente tem que considerar a possibilidade de não passar de besteira, de enganação pesada, já que toda a história pode muito bem ser uma cópia estêncil (se na época não tinha xerox, scanner nem pensar) da história de qualquer ‘sociedade secreta’, desde a maçonaria aos rosacrucianos, até a Ordem de Cristo, que remeteria aos cavaleiros templários, que remeteria a Hassan I-Sabah, os hashashin e aos Illuminatti.
Enfim, dá pra entender a mixórdia que á a história, né?
Então a ‘sociedade da garça’, segundo a ficção do Aristóteles, era uma das dissidências da Ordem de Cristo que, ao chegar na terra brasilis, juntou-se aos índios locais e absorveu um monte dos costumes e ritos pagãos, elegendo a garça como totem e criando o posto de ‘cavaleiro da garça’, um tipo de sacerdote guerreiro que estaria encarregado de manter a paz entre os colonos (muitos dos quais eram criminosos degredados) e os nativos e proteger o litoral de ‘atos de pirataria’.
Um terço do livro detalha a seleção e treinamento de um desses ‘cavaleiros’ e a coisa pode ser muito chata e demandar o consumo de café em quantidades industriais, mas os dois terços restantes são uma aventura bem bacana de capa e espada… o ‘cavaleiro’ iniciado é um sujeito que perdeu a memória depois de um ataque pirata ao seu navio e, apesar de ter sido encontrado semi-morto na praia, sobreviveu milagrosamente. Material perfeito de recrutamento pra sociedade, já que um dos requisitos pra se tornar ‘cavaleiro’ era ‘não ter laços com a comunidade’. O cara adota o nome Afonso Guerra e se torna o defensor local.
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