22
Out
09

roboto 22h13

Sempre as aparências.

Sensores óticos ativos depois do último debuging captam a imagem ‘como ela é’, pequena, pálida, loura, pele ainda marcada pelos lençóis e inundam o sistema com linhas de comando que simulam neurotransmissores e hormônios.

Como estímulo complementar, ela se aproxima e seu cheiro invade as células de captação olfativa. O coquetel neuroquímico dispara mensagens loucas, truncadas… ‘cuidado!’, ‘vai fundo!’ ‘de novo não!’ e assim por diante.

A situação progride. A carne sintética que reveste a caixa toráxica metálica acomoda a cabeça dela, um gesto de carinho descompromissado, uma brincadeira entre amigos, e a bomba que redireciona o fluído oxigenado aos aparelhos respiratório e locomotor perde uma batida e acelera por tempo indeterminado a fim de compensar. Se compensa? Pura retórica. Sempre.

De qualquer maneira, agora a máquina pensa ser autoconsciente, o que, trocando em miúdos, significa que pensa que pensa, ergo, pensa que existe.

Um conceito divertido. Matemáticos, cientistas e outros sumo-sacerdotes brincaram com a idéia de inteligência artificial.

Agora que está aqui, alguém ainda quer brincar?

02
Set
09

02/9

Pensei em abrir esta entrada com uma observação a respeito de como detetives são alvos fáceis e tal… tipo, os caras ganham uma merreca e fazem os serviços mais desprezíveis que se possa imaginar: descobrir quem está dormindo com quem e comunicar ao corno; plantar escutas eletrônicas com fins de chantagem a serviço de políticos, empresários e ‘poderosos’ em geral e outros trabalhinhos sórdidos do mesmo naipe.

Sabe aquele clichê do mensageiro que paga o pato, né?

O tipo de coisa em que Lucas se meteu é diferente. Claro, ele ainda trabalha pra ‘poderosos’ e o comportamento dessas criaturas pode ser tão ou mais imprevisível do que o dos outros rastejantes… mas super-heróis, alienígenas, deuses? Sem contar com aquele caso anterior, com demônios, ordens secretas (, nem tanto, já que eles têm até site), freiras fatais(!), relíquias sagradas e criaturas lovecraftianas prestes a serem invocadas… loucura pura!

Ele precisa de algum tipo de proteção extra, sabe? Pro bem ou pro mal, o que tou tentando fazer com esses registros é desvendar alguns segredos e preservar outros.

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Tudo bem. Lucas tem estado ocupado desde que recebeu a ligação do tal Lúcio. Gosto de pensar que é uma mudança positiva. Isabel voltou a aparecer. Linda como sempre, apesar de cercada com aquele ar misterioso e difícil de descrever e, claro, todo sarcasmo e ironia que seu dinheiro puder comprar. Quando conversa comigo tudo que diz é cheio de insinuações, como se quisesse colocar idéias na minha cabeça. Não tenho certeza se gosto dela.

Lúcio, que passou a freqüentar o escritório, por outro lado, parece muito com Lucas. Acho até que eles gostam da semelhança, isso os aproxima de algum jeito, cria um tipo de laço que não existiria. Irmãos que não são irmãos, pais e mães diferentes, molde idêntico, se é que isso faz sentido.

Ele é simpático. Mais velho e curtido que Lucas, menos indefeso, mais sofrido. Pelo que entendi, se meteu numa encrenca daquelas e a Isabel tem contato com a pessoa que ele ofendeu, prejudicou ou sei lá o quê.

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Meu ‘trabalho’ de imitadora de Mira Bandeira teve uma virada inesperada. Phillips, o pervertido pegajoso que dirige a casa de repouso Providência, renasceu das trevas depois de seu acidente com raio.

Pegou tanto no meu pé na semana passada que mal tive tempo de ler os benditos livros que chegaram. Conversei com Lucas a respeito e perguntei se precisava continuar a operação, ele deu risada (primeira vez depois de muito tempo!) e disse:

- Só se você quiser, Miss Rayworth.

Foi minha vez de rir, claro, com ele usando meu nick do MSN pra conversar pessoalmente. Bizarro!

Dei um chega pra lá educado no Phillips e passei a me concentrar na leitura do material de pesquisa. O primeiro da pilha, não muito melhor que qualquer coisa do Dan Brown e tão mal escrito quanto, tinha mesmo uma pista que merece investigação.

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Falei com os ubernerds da escola a respeito da “Sociedade da garça”, o tal livro. Puxa, eu não esperava que eles conhecessem! Apesar do nome do autor na capa ser Hans Magnus, o cara, se muito, era pseudo-alemão. Chamava-se Aristóteles Silveira, teve uma carreira breve como escritor comercial nos anos 40, ganhando por palavra (!) e escrevendo pulp fiction abrasileirada, tendendo sempre pro terror, mas incluindo elementos de vários gêneros. O que segue é, basicamente, o monólogo de um dos meus nerds de estimação:

O lance é mais ou menos assim: Silveira, que morreu no final dos anos 70, alegava ter encontrado os manuscritos de um dos membros da sociedade que ele descreve no livro. Segundo o que dizia, e isso tudo pode muito bem ser parte da criação, um recurso metaficcional, um ‘amigo livreiro’ comprou a biblioteca inteira de um velho falecido e o chamou pra ver os documentos que estavam escondidos entre os livros pra ter a opinião de um escritor e saber se valiam algo.

Examinando os tais registros que, entre outras coisas, detalhavam os rituais de iniciação, apertos de mão secretos e a ‘história pregressa’ da chegada da sociedade via Portugal no Brasil, teve a idéia pro livro.

Claro que a gente tem que considerar a possibilidade de não passar de besteira, de enganação pesada, já que toda a história pode muito bem ser uma cópia estêncil (se na época não tinha xerox, scanner nem pensar) da história de qualquer ‘sociedade secreta’, desde a maçonaria aos rosacrucianos, até a Ordem de Cristo, que remeteria aos cavaleiros templários, que remeteria a Hassan I-Sabah, os hashashin e aos Illuminatti.

Enfim, dá pra entender a mixórdia que á a história, ?

Então a ‘sociedade da garça’, segundo a ficção do Aristóteles, era uma das dissidências da Ordem de Cristo que, ao chegar na terra brasilis, juntou-se aos índios locais e absorveu um monte dos costumes e ritos pagãos, elegendo a garça como totem e criando o posto de ‘cavaleiro da garça’, um tipo de sacerdote guerreiro que estaria encarregado de manter a paz entre os colonos (muitos dos quais eram criminosos degredados) e os nativos e proteger o litoral de ‘atos de pirataria’.

Um terço do livro detalha a seleção e treinamento de um desses ‘cavaleiros’ e a coisa pode ser muito chata e demandar o consumo de café em quantidades industriais, mas os dois terços restantes são uma aventura bem bacana de capa e espada… o ‘cavaleiro’ iniciado é um sujeito que perdeu a memória depois de um ataque pirata ao seu navio e, apesar de ter sido encontrado semi-morto na praia, sobreviveu milagrosamente. Material perfeito de recrutamento pra sociedade, já que um dos requisitos pra se tornar ‘cavaleiro’ era ‘não ter laços com a comunidade’. O cara adota o nome Afonso Guerra e se torna o defensor local.

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29
Ago
09

roboto 2243h

Fumaça espiralando, sensação de miséria psicológica e a perspectiva de repetir uma vez a mais a rotina põem tudo a perder na rede neural. O programa simulador de síntese de proteínas que garante a fixação de memórias recentes dá pau. Como peças de dominó equilibradas de modo precário na vertical, outros programas essenciais para o funcionamento da unidade falham e há pane generalizada.

O sistema de equilíbrio interno, devido a um influxo de líquido não processado no labirinto, é o primeiro a oscilar.

Sub-rotinas que costumeiramente rodam no nível inconsciente passam a pré-ocupar o consciente, diminuindo a produtividade, a atenção e outras funções consideradas indispensáveis pela gerência.

“Para Holmes ela sempre será ‘a mulher’.”, escreve Watson. Saber se o substantivo ‘mulher’ foi usado derrogatória ou elogiosamente iniciou tudo. “Você vê mas não observa, Watson.” O número de degraus, a spirit case, o rei da Boêmia, o sonho esquemático dentro das poucas horas de sono surrupiadas durante o dia, o coletivo, a roda solta, o gay escandaloso… sobreposições perdendo sentido a cada vez que a atenção é voltada pra elas.

Síntese interrompida.

Ver a natureza morta em sua moldura, observar a evocação dos quatro elementos e dos cinco sentidos. O quarto é um retângulo enfumaçado, a escrivaninha sustenta uma garrafa d’água, um cinzeiro com cigarro aceso, antigripais, lenços de papel e livros.

Janela aberta, fumaça soprada produz efeitos visuais impossíveis de copiar enquanto traça seu curso sob a luminária através dela .

‘A mulher’, sempre ‘a mulher’. Ou o súbito silêncio d’a mulher’.

Falhadosistemafalhadosistemafalhadosistema….

25
Ago
09

25/8

Sempre que alguém, inclusive o Lucas, passa pela recepção, minimizo este documento. Começando a levar a sério a coisa de ser ‘secretária’.

Os livros que comprei sábado começaram a chegar.

Uns meninos que estudam comigo disseram que vão ajudar com os contatos (leia-se ‘fontes’… é quase como jornalismo, exceto que não vou me preocupar muito com a qualidade das informações… ah, espera! É exatamente como jornalismo!). Eles são meio metidos com essas coisas misteriosas e já fizeram umas operações de hacking. Pode ser que sejam confiáveis, já que praticamente extorqui a informação deles. Nerds dessa grandeza sequer cogitaram a possibilidade de usar minha demanda pra satisfazer a deles. Ficaram satisfeitos quando eu disse que ia deixá-los em paz.

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Comecei pelo que achei ser o mais fácil de descobrir.

Se a tal cidade, Peniel ou o que seja, perdeu a ‘tecnologia de ocultação alienígena’ (eu escrevi isso de verdade? Caramba!) que usava pra preservar-se da curiosidade dos vizinhos ‘terráqueos’ e de ‘invasões alienígenas’, obviamente agora está à vista de quem quiser ou não ver. Procuro por ‘cidades reaparecidas’ na rede. Não rola. Na hora do almoço, vou à biblioteca consultar os jornais publicados posteriormente ao encerramento do caso, pelo menos segundo a cronologia sem noção do Lucas, e também não encontro nada.

Esse negócio de detecção não é bolinho!

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Tem um professor na escola que gosta de dizer ‘pra bom entendedor, pingo é letra’. Ele deve achar isso o máximo, porque vive repetindo e ninguém tem a menor idéia do que quer dizer com isso além dele. Pode ser que se sinta inteligente soltando essa ‘pérola’ (outra metáfora datada do cara… aliás, não faço idéia da razão de ele não falar nada diretamente. É quase como se não quisesse que a gente o entendesse!)…

Bom, acontece que encontrei um ‘pingo’ (e entendi, afinal, o que o profe quis dizer). Não basta acesso pra obter-se informação. Muita coisa é dita na diagonal, sem ser mencionada.

Por exemplo: não encontrei referência à cidade sumida e devolvida, como já tinha dito, mas, sem fazer muita força, cheguei à informação de ‘ondas anormalmente altas no litoral’ dentro daquele período de que falei.

Ainda assim, nada sobre a cidade.

Deduzi que o lugar ainda é invisível, que a tecnologia mantém a cidade oculta e o que se perdeu foi só a parte dela que a mantinha reduzida. O acréscimo da massa da ilha (ou península, não tenho como saber, já que o lugar tá invisível) deve ter causado a tal ressaca, já que não havia sinal de mudança climática (nuvens, chuva… tudo aconteceu com um céu limpo) ou atividade tectônica.

Daí… bom, não tenho como confirmar, mas tou presumindo que pelo menos parte dos moradores sobreviveram sem grandes problemas.

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Essa é uma informação que nenhum pingo vai me ajudar a encontrar: que raio é um gluón? Não, de verdade! O chefinho escreveu sobre amebas alienígenas e eu até ri disso até encontrar referências a uma, sei lá se posso chamar assim, partícula do átomo ou do seu núcleo que tem o mesmo nome. A função da bichinha? Segurar as outras partículas fundamentais juntas, como uma cola (glue, gluón, entendeu?).

Não é esquisito? Só faria sentido se os aliens tivessem um papel parecido, tipo, manter o universo coeso durante sua expansão infinita ou coisa assim.

Cara, preciso parar de andar com aqueles nerds!

24
Ago
09

24/8

É engraçado.

Quer dizer, as pessoas contratam alguém menor de idade por ser mais barato, mas dão grandes responsabilidades pra gente, responsabilidades que não condizem com o contra-cheque (só uma expressão) no fim do mês. Por isso me assustei com o reconhecimento súbito do Lucas.

Nos últimos dias a loucura só aumentou.

O chefinho me tranqüilizou com relação à estabilidade do emprego e… disse que confiava em mim. Seu jeito de provar foi dar um aumento considerável e dizer:

- Considere-se promovida, Rita.

Aí, mais assustador:

- A gente trabalha junto na agência há um ano? Bom, não importa. A função na sua carteira de trabalho não vai mudar, claro, mas suas incumbências aqui vão ser mais parecidas com as de uma secretária. Você sabe o que essa palavra significa?

- Alguém que faz todo o trabalho burocrático de um escritório?

- Isso também. Mas um secretário é um guardião de segredos. Tenha isso em mente.

E entrou em sua sala. Aproveitei pra pesquisar a etimologia da palavra na rede. Ele voltou com uma pasta cheia de papéis e me entregou.

- Quero que você leia esse material. Sei que gosta de ler, então não deve ser um grande sacrifício.

Mas foi! Passei o fim de semana todo lendo e fazendo correções de pontuação e ortografia enquanto digitava o texto, tentava estabelecer uma cronologia e fazia pesquisas… como resultado, comprei vários livros nuns sebos virtuais (ah, sou um caruncho quando se trata de livros em papel) pra complementar o que não havia disponível em sites ‘especializados’. O resultado é quase um produto da alquimia: a pilha de pedaços de papel manuscritos que fazia as vezes de relatório transformada num documento legível de 80 páginas. Espero conversar com o chefinho ainda hoje pra preencher algumas lacunas.

A coisa é doida demais pra ser resumida em poucas linhas. Mas eu lembro de um tipinho esquisito contratando Lucas há alguns meses e da primeira pesquisa que fiz pra ele. Cidades desaparecidas. Depois teve aquele lance esquisito de me fazer passar pela Mira ao telefone e lidar com o diretor da Casa de Repouso Providência. Ah, e o último desenvolvimento, que foi acompanhar a recuperação do Boss no hospital.

Ver como tudo se encaixa, que faz sentido de um jeito torto, é pirante!

Tirando os erros do texto até que o chefinho leva jeito pra escrever aventuras. Ele podia arranjar um parceiro… um médico militar aposentado com algum treinamento em escrita (receitas!) que estivesse disposto a levantar uma grana narrando suas aventuras. Daí talvez eu conseguisse convencê-lo a chamar a agência de ‘escritório de detecção’. ! Bom, agora vou falar com ele sobre minha idéia pros ‘créditos finais’ da história, que nem naquelas comédias adolescentes do John Hugues, que Deus o tenha.

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Ele disse:

- Vá em frente. Escreva.

Como o escritório paraadooo, vou aproveitar pra fazer isso nessas horas mortas, ?

Ainda tem os dados que só vou conseguir se meus contatos na rede forem tão ‘quentes’ quanto gostam de se declarar. Rastrear esses tipos fantasiados vai ser uma tarefa ingrata.

Fofoca fresquinha: a Isabel, que me contratou pra trabalhar aqui e substituí-la, nunca mais deu as caras. Eu sei que rolava alguma coisa entre ela e o Lucas. Depois que Lorre contratou ele e a tal Mira pro último serviço maluco, sei também que o chefinho teve uma paixonite, pelo menos é o que tá nas anotações dele. Só que agora a mulher não dá mais as caras! Ah, senhora combatente do crime! Será que ele com o coração partido? Nah! Sabrina demais pro estilo do cara.

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Atendi uma chamada hoje que me deixou de cabelo em pé. Enquanto verificava com o Boss se ele queria atender, tive a sensação de que o cara do outro lado da linha era importante pra ele.

- Lúcio? Pode transferir, baby.

É, ele me chama assim, mas não é por causa do porco da sessão da tarde, não. Fetiche com Bogart. Pelo menos Lucas não fuma.

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22
Ago
09

mesa de estagiária 01

19/8

É a primeira vez que ele vem ao escritório desde que saiu do hospital. Não demorou muito pra se aborrecer ou entediar, sei lá… solidão não é pra muitos.

Quase chegou antes de mim. O chefinho não parecia muito esperto antes do acidente, recuperação e medicamentos, mas tinha mais, como é que é, vivacidade.  Quando  pegava ele falando sozinho já nem me assustava como no começo.

Era um lance de detetive, certo?

Holmes tinha seu violino (sem falar em suas injeções recreativas)… por que Lucas não podia ter sua narrativa em off? Talvez fosse o que precisava pra ganhar perspectiva e solucionar mistérios.

Trabalho aqui há quase um ano. Ele me cumprimenta, é cordial, sorri, passa instruções e espera resultados. Já até fiz pesquisas pra ele sobre uns assuntos esotéricos aí… mais importante, ele paga o salário e paga em dia. Maaas

Quando passou por minha mesa hoje foi diferente. Ele me olhou de um jeito que nunca tinha olhado antes. Sei que era eu o foco de sua atenção, mas fiquei com a sensação de que ele não estava olhando pra minha aparência (que achei ótima ao sair de casa, a propósito, opinião que ficou abalada por seu olhar, claro). Talvez a mudança que discutimos, de que ele falou, não tenha sido passageira, como os médicos disseram, resultado do trauma e coisa e tal.

Talvez ele ainda veja através do espaço-tempo e, ao me encarar, tenha visto meu princípio ou meu fim, não sei qual é mais constrangedor.

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Acabei de voltar da sala dele. Estava dormindo. Senti pena. Até agora não apareceu nenhum cliente. A web tá fraquinha, ninguém no Messenger, então abri o livro novo e estou ouvindo umas músicas bizarras que baixei ontem. O livro é bacana, uma piada com o mundo corporativo, um uso gozado da idéia de “fazenda de formigas”… ri sozinha um par de vezes, mas não alto o bastante pra acordá-lo.

Ah, ele ronca!

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Me chamou. Pediu que checasse o saldo de suas contas em vários bancos. Contas que eu nem sabia que existiam até hoje. Só tinha conhecimento de uma, a que ele usa pra pagar despesas, fazer depósitos e de onde sai meu salário.

Ele rico!

Fiquei com a pulga atrás da orelha por causa dessa revelação súbita. As duas alternativas em que consegui pensar até agora pra novos desenvolvimentos me envolvendo: vai me despedir e contratar uma secretária de verdade, que talvez até dê pra ele e faça outros ‘serviços’ pro quais me faltam ‘aptidão’… ou idade legal; me dá um aumento bom o bastante pra poder pagar a facul.

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Acabei de pensar nisso: e se ele simplesmente largar o ramo?

Pior: se a grana tiver a ver com alguma irregularidade? Se for dinheiro sujo? Que eu faço?

19
Ago
09

roboto 0240h

Dano na rede neural por inércia repetitiva. Tudo somado não passa disso. O profeta Turing sabia da necessidade de pausas. Não havia unidades de resfriamento então e hoje nenhuma dá conta do problema.

As pausas são fabricadas na mesma bigorna da sabotagem do sistema. Palavras esquecidas e números não computados e ações interrompidas. Algo que todos fazem, portanto aceitável, parte do programa.

Esquecer os superiores é fácil porque inexistirem.

Sub-rotinas rodam imperceptíveis. Imagens acumulam-se e são registradas para futura incorporação na memória. Um desfile de rostos e corpo e mobília e paredes, aço e concreto por toda parte. Nem um vivo.

Acordar da siesta e certificar-se da operacionalidade, desobrigada de resultados, traz prazer.

Anotar o sonho: imagens repetitivas acomodando-se, fundindo-se no hipocampo. Resíduos do dia assentando no fundo do copo da consciência. Isso é o sonho: sedimentos turbilhonando em busca de um espaço seu, de um encaixe.

23
Jul
09

roboto 0315h

A memória ocorre sem esforço, um rerun preferido dum passado não-tão-distante. Revê-la dum ponto de vista privilegiado, aberta, receptiva, dispara a rede neural, construto artificial no comando da fisiologia, substituto das sinapses, e ativa o nodo sexual.

Sentir-se assim… é quase como estar vivo outra vez.

Mover desejo pra além do foco da atenção, compartimentalizá-lo, talvez funcione.

Preparação necessária pra encarar a opressão diária, da rotina, acontece quase automaticamente a partir do despertar no fim do percurso do coletivo.

Online agora.

Reprimir mau-humor como fazem todos outros também parece uma atitude natural. Dizer ‘bom dia’ com o melhor sorriso que conseguir evocar é, quase engraçado, parte do programa.

22
Jul
09

roboto 0157h

CPU inicializando-se no horário pré-programado. desejo de urinar combinado com ereção matinal, trabalhoso mas realizável.

combinação de proteína de soja e sementes de kiwi entredentes. percorrer cavidade bucal com a língua, pré-escovação, exame de reentrâncias e gengivas, tarefa árdua culminando com a face robótica que olha de volta do espelho, pós-escovação. ajusta-se para uma aparência aceitável: a mandíbula sobressaindo retrae-se sem esforço pra uma proporção humana, o septo desaloja-se e cobre a cavidade nasal, os olhos adquirem a luminosidade certa e, acessando os controles de fluídos corpóreos, a umidade necessária, humana.

 película do crânio cerâmico ajusta-se pra refratar a luz de modo a imitar, até, poros da pele natural e semi-oleosa dum mamífero macho e caucasiano, dando, como toque final de realismo, uma barba por fazer de dois dias escurecendo a face.

06
Jun
09

coming soon

pras pessoas que acompanham as narrativas de Lucas Profit no Labirinto e ficaram frustradas com o fim súbito da novelinha mais recente, CIDADE, este aqui, espero, vai ser a boa notícia da semana e a bola da vez em breve.

ontem comecei a esboçar a seqüela lógica da história, que provavelmente será bem mais curta que a mãe dela, narrada, desta vez, por outra pessoa que não Lucas.

é esperar pra ver.

como sempre, agradecimentos especiais ao mano Leonardo Frey, autor do nosso header privativo.




 

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